Com seu casaco surrado,

Angústia no peito varado,

Viver ou morrer como for,

Pelo açoite cruel do tempo,

O filho do vento do interior,

Lá das bandas dos cafundós,

Foi pra cidade dos mocós.

 

Ainda com a poeira nos pés,

Um velho com prato na mão

Olhou bem pra ele e apontou,

Vê aquele verde casarão,

Ali, naquela esquina, moço!

Foi onde nasci e me criei;

Vivi e curti como um rei,

Até perder tudo no jogo

Com mulheres dos cabarés.

 

Como num caso de sina,

O senhor riscado pela idade,

Contou-me suas histórias

De dias festivos e glórias

Daquela libertina esquina,

Que tinha até assombração,

Como a do diabo Diogo

Que toda a meia noite,

Galopava num cavalo de fogo,

Com um tridente reluzente,

Como o sol quente do sertão.

 

Nessa penada travessia,

Como fugido clandestino,

Com sua velha capanga vazia,

Sabedoria de pouco ensino,

Ele só via naquela esquina,

Da lanchonete “Formosura”

A linda moça de nome Dasdor

Com seu jeito doce de menina,

Sorriso inocente de uma flor,

Torturada pela dita ditadura.

Naquela histórica esquina,

Onde muita gente conspirou,

Fez-se até golpe e revolução,

Cruzaram escravos e senhor,

Pecador e santo barro de andor,

Viveu um grupo de ideário

Que o tirano cruel ditador

Fez o seu rito sumário

E os rebeldes enforcou,

Sempre nasce outra Dasdor,

E outro sonho libertador.