O assunto foi alvo de debate no último Sarau A Estrada em 27 de novembro, e todos os detalhes da vida e da obra do alagoano Graciliano Ramos foram publicados em nosso espaço. O Sarau está entrando no nono ano e é sempre realizado no Espaço Cultural A Estrada, com cantorias, causos e declamações de poemas, gerando o projeto do Cd Sarau.

POSFÁCIO, de Hermenegildo Bastos. O crítico diz que Baleia sonha ou delira quando pensa e projeta, quando opina sobre Fabiano e leva o leitor a elaborar juízos de valor. O sujeito é o narrador. De Baleia saem muitas falas através do seu silêncio. Os sujeitos transmitem consciência individual e coletiva, mesmo na figuração de derrotados. Vivem no mundo da opressão, mas sonham com a liberdade. Cada um tem seu ponto de vista, seu foco. Afirma que a literatura de Graciliano se articula em torno do problema do outro. Vidas Secas apresenta o mundo da degradação. Fabiano é um trabalhador rural desqualificado. Esforça-se por entender o mundo e a exploração. Pode escolher entre matar o soldado amarelo, ou deixa-lo vivo. O romance provoca o leitor a acompanhar o processo de produção literária, ao mesmo tempo em que o envolve na questão do destino dos personagens. O leitor vivencia o trabalho, a fadiga e os limites naturais e sociais da existência humana. Graciliano foge das técnicas literárias, e Otto Maria Carpeaux acha que o escritor quis eliminar tudo para ficar com a poesia.  O dono da venda, o soldado, o fiscal, o patrão se integram ao processo de exploração do capitalismo. A ida para o sul não é só liberdade. Vidas Secas narra o mundo reificado e a luta dos homens pela liberdade. O escritor converte-se em personagem da obra, de modo diferente daquele de quando o narrador era também personagem. O livro, afirma Bastos, é de extrema liberdade em relação aos modelos tradicionais de romance. Invade o terreno da poesia, o que foi bem observado por João Cabral de Melo Neto. Tece um diálogo entre narrador letrado como o personagem iletrado. Cada artista desenvolve seu trabalho conforme suas peculiaridades. O trabalho literário é ao mesmo tempo amaldiçoado porque lembra ao homem sua falta de liberdade, mas também é espaço de resistência porque reafirma o horizonte da liberdade. A primeira coisa que nos diz uma obra de arte é que o mundo da liberdade é possível, e isso nos dá força para lutar contra o mundo da opressão.

REPORTAGENS DO ESTADÃO – Os repórteres percorreram Quebrangulo, Buíque, Palmeira dos Índios, Mirador do Negrão onde foi feito o filme na década de 60 por Nelson Pereira dos Santos e povoados.  A fazenda Pitadinho, em Buíque, Pernambuco foi toda modificada.

Quebrangulo tem 11 mil habitantes e fica na boca do sertão. Vive entre a seca e as enchentes do rio Paraíba. A casa foi herdada pela família de Gerusa Marcelo. “Terra de Graciliano, terra de todos nós”´ – diz um cartaz na estação ferroviária.  A casa nunca virou museu, mas a prefeitura sempre prometeu. Adriana, que mora nela, acha que a casa é igual a qualquer outra. A cidade continua na mesma miséria, entre as secas e as inundações. Existe a intenção de se construir um trem turístico ligando Quebrangulo a Palmeira dos índios, no percurso de 28 quilômetros.

Em Buíque, a vegetação é de palma, xiquexique, mandacarus, macambiras e coroa de frade. A Fazenda foi toda modificada, para criação de gado, produção de queijos e tem um poço artesiano. Vez por outra aparece um visitante para conhecer o lugar onde o escritor cresceu e tomava surras porque aprendeu gírias dos descendentes de escravos. Próximo à fazenda Pitadinho fica a vila São Domingos onde os Ramos colocaram uma loja depois de perderem tudo na seca. Por lá, naquela época, carro-de-boi era sinal de progresso.

Em Palmeira dos Índios, Graciliano foi prefeito de 1928 a 1930. Renunciou ao cargo dois anos depois, desgostoso com a política. Ele concorreu sozinho à eleição. Depois aceitou ser diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Como prefeito, fez o primeiro Código de Postura Municipal, com 82 artigos. Logo que assumiu, enviou ao governador um relatório transparente, no formato literário, em estilo inspirador da Lei de Responsabilidade Fiscal, O relatório também impressionou o editor Augusto Schimidt. Construiu estradas, teve a ideia de um açude e reclamou do contrato feito com o fornecedor de energia elétrica. Esse contrato foi  feito às escuras – disse. No seu tempo tinha 11 funcionários.

Conta a história que um dia um matuto foi ao seu gabinete e reclamou que, pela segunda vez, o gado do vizinho invadiu sua roça e destruiu a plantação de mandioca, com prejuízo de dois contos. O senhor deveria ter vindo há mais tempo – advertiu o prefeito, no que o matuto respondeu que o gado era do seu pai. “O prefeito, meu senhor, não tem pai, nem mãe”. Os repórteres constataram que por lá existem poucas homenagens (alguns seminários e eventos). Em 2017, o município sofreu uma das piores estiagens.

Na sede da prefeitura (o município de 74 mil habitantes, tem 129 anos de emancipação), não existe mais galeria dos prefeitos. O chefe de gabinete informou que os quadros foram recolhidos para recuperação, mas constatou-se que estão num canto mal conservados.

“Quem leu Vidas Secas mergulha no sofrimento do povo do Nordeste que até hoje sofre com a desigualdade social e a concentração de renda” – diz o prefeito Júlio César. No entanto, é pouco lido e conhecido dos seus moradores. Ainda existem coronéis de pijama. O Nordeste ainda tem sede, principalmente de justiça. Hoje o saneamento básico chega a apenas 14% da população.

Por lá, o escritor tem seu nome numa escola, no auditório, um museu fechado em reforma e nome de bairro. Seu retrato está no museu Xucurus, na Igreja do Rosário. Um busto feio e troncho decora o trevo rodoviário na BR-316 com uma frase do livro de S. Bernardo: “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer”. O monumento é criticado pelo escritor da terra Ivan Bezerra de Barros, que luta para preservar sua memória. Em 2000 seu acervo foi tombado, mas seus documentos encontram-se no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Em Maceió existe uma estátua de bronze em sua homenagem na praia de Pajuçara. Em Palmeira deu aulas de aritmética, português, francês e escreveu seus primeiros textos de seus livros. Dirigia a loja “A Sincera”.

CINEMA –  O filme Vidas Secas, de Nelson Pereira, foi feito em Minador do Negrão, em 1963, e teve como diretor de fotografia Luis Carlos Barreto, que não queria alegando falta de experiência, mas Glauber Rocha lhe deu uma força. Teve uma grande repercussão dentro e fora do Brasil.

O senador Arnon de Mello, entusiasta do escritor, facilitou os contatos. Naquela época, a cidade era violenta e cheia de pistoleiros. Deram à produção dois jipes do governo. Um dia apareceu dois cabras pedindo os veículos emprestado. No outro dia estampou nas manchetes um crime bárbaro com a morte de quatro pessoas. Foi em Palmeira onde foi descoberto o ator Jofre Soares (Terra em Transe e Memórias do Cárcere). A Baleia foi comprada numa feira por cinco cruzeiros e só se filmava das 5h30 às 10h30 para aproveitar o sol. Nelson passou a chamar a cachorra de Grace Kelly.

O figurante Domingos, umbandista, no meio das filmagens, deu um surto e entrou no matou e se ensanguentou nos mandacarus. Voltou dizendo que o homem não queria um filme se não rezasse uma missa. Logo o “Graça” que era ateu. Decidiram rezar a missa para limpar a barra. Foi filmado, por conselho de Glauber, sem luz artificial, com luz e câmara, sem filtro (fotografia pela sombra), em dois takes – a Tri X e a Plus X (menos sensível), com dramaticidade e calor intenso. Isso chamou a  atenção do cineasta Francis Ford Coppola.

Em 1963/64 foi escolhido para representar em Canes, juntamente com Deus e o Diabo na Terra do Sol e Ganga Zumba. Antes teve uma sessão para intelectuais e artistas. Por ser o livro de um escritor comunista, havia um clima reacionário. O filme tinha muito a ver com a reforma agrária. Na sessão levantou um coronel e disse que mandaria os dois primeiros para a fogueira, por ser uma propaganda comunista. Um colega dele retrucou que assim parecia que estávamos numa Alemanha de Hitler. O reacionário colocou a viola debaixo do braço e foi embora.

Nelson, eu (Luis Barreto) e Glauber fomos acusados de fazer contrapropaganda denunciando a ditadura de 1964. Na Bahia foi exibido no Cine Tamoio. Para lá foi uma patrulha do exército e sumiu com a cópia. Juracy Magalhães na época interviu e mandou que a pelícola voltasse  a cartaz.

Baleia foi levada para Canes. Disseram que o filme era selvagem porque Nelson mandou matar o papagaio e a cachorra. Para filmar Baleia fizeram um efeito especial tupiniquim. Arranjaram um carro-de-boi e colocaram Baleia bem de frente para o sol para que ela fechasse os olhos fingindo de morta. Levaram a cachorra para mostrar que não éramos selvagens. Ela desceu do avião como uma estrela e fez xixi dentro do aeroporto.

Literatura – O livro recebeu críticas de Antônio Cândido, Thiago Mio Sala  e Ricardo Ramos Filho, da USP em artigos comemorativos dos 50 anos da obra. Segundo Thiago, o livro continua trazendo marcas na sociedade. Para Ricardo, a realidade é a mesma. O livro de 137 edições consolidou a imagem de Graciliano. Disse Ramos que considerar apenas como regionalista é desvalorizar a obra. Ela tornou-se universal Ainda trata de um tema muito atual que é a imigração no mundo. O sertão não mudou e a realidade é a mesma. O autor utilizou a seca como pano de fundo para falar da opressão e das injustiças do sistema social.

É um retrato da seca mostrando que o governo não se preocupa com seu povo. Se vivo, seria um grande crítico do governo, contra as injustiças. Em Minador do Negrão,  muitos ainda deixam suas fazendas por causa da seca.  Em 2000 se vendia uma vaca para comprar ração para a outra. Muitos fizeram suas malas e foram embora. O sertão é o mesmo onde se mora em casa de taipa, facão a tiracolo, vaqueiro pisando em ossadas de animais. Dormem em jiraus, se enganam nas contas do patrão e sonha ter cama de couro.

EMERGÊNCIA NOS MUNICÍPIOS – A estiagem que nos últimos anos assola várias regiões da Bahia colocou 219 municípios (mais da metade)  em situação de emergência reconhecida, com uma população de quase cinco milhões de pessoas afetadas. Os municípios passam a receber apoio para enfrentar a falta de água e de alimentos. Em muitas regiões as safras têm sido nulas.

O maior socorro ainda tem sido os carros-pipas, como há muitos anos. Em 2012 foram 265 em emergência, só que naquele ano as barragens estavam com boas reservas. A Bahia é o estado com o maior número de cidades nessa situação no Brasil. Em segundo lugar está o Ceará com mais de 100, seguido de Minas Gerais com cerca de 80, Pernambuco com 70, Piauí com mais de 40 e Alagoas em torno de 40. No total, o Brasil tem cerca de 600 municípios atingidos pela seca com emergência decretada.