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:: 21/dez/2018 . 22:56

OS 80 ANOS DE “VIDAS SECAS” DE GRACILIANO RAMOS EM DEBATE NO SARAU

O assunto foi alvo de debate no último Sarau A Estrada em 27 de novembro, e todos os detalhes da vida e da obra do alagoano Graciliano Ramos foram publicados em nosso espaço. O Sarau está entrando no nono ano e é sempre realizado no Espaço Cultural A Estrada, com cantorias, causos e declamações de poemas, gerando o projeto do Cd Sarau.

POSFÁCIO, de Hermenegildo Bastos. O crítico diz que Baleia sonha ou delira quando pensa e projeta, quando opina sobre Fabiano e leva o leitor a elaborar juízos de valor. O sujeito é o narrador. De Baleia saem muitas falas através do seu silêncio. Os sujeitos transmitem consciência individual e coletiva, mesmo na figuração de derrotados. Vivem no mundo da opressão, mas sonham com a liberdade. Cada um tem seu ponto de vista, seu foco. Afirma que a literatura de Graciliano se articula em torno do problema do outro. Vidas Secas apresenta o mundo da degradação. Fabiano é um trabalhador rural desqualificado. Esforça-se por entender o mundo e a exploração. Pode escolher entre matar o soldado amarelo, ou deixa-lo vivo. O romance provoca o leitor a acompanhar o processo de produção literária, ao mesmo tempo em que o envolve na questão do destino dos personagens. O leitor vivencia o trabalho, a fadiga e os limites naturais e sociais da existência humana. Graciliano foge das técnicas literárias, e Otto Maria Carpeaux acha que o escritor quis eliminar tudo para ficar com a poesia.  O dono da venda, o soldado, o fiscal, o patrão se integram ao processo de exploração do capitalismo. A ida para o sul não é só liberdade. Vidas Secas narra o mundo reificado e a luta dos homens pela liberdade. O escritor converte-se em personagem da obra, de modo diferente daquele de quando o narrador era também personagem. O livro, afirma Bastos, é de extrema liberdade em relação aos modelos tradicionais de romance. Invade o terreno da poesia, o que foi bem observado por João Cabral de Melo Neto. Tece um diálogo entre narrador letrado como o personagem iletrado. Cada artista desenvolve seu trabalho conforme suas peculiaridades. O trabalho literário é ao mesmo tempo amaldiçoado porque lembra ao homem sua falta de liberdade, mas também é espaço de resistência porque reafirma o horizonte da liberdade. A primeira coisa que nos diz uma obra de arte é que o mundo da liberdade é possível, e isso nos dá força para lutar contra o mundo da opressão.

REPORTAGENS DO ESTADÃO – Os repórteres percorreram Quebrangulo, Buíque, Palmeira dos Índios, Mirador do Negrão onde foi feito o filme na década de 60 por Nelson Pereira dos Santos e povoados.  A fazenda Pitadinho, em Buíque, Pernambuco foi toda modificada.

Quebrangulo tem 11 mil habitantes e fica na boca do sertão. Vive entre a seca e as enchentes do rio Paraíba. A casa foi herdada pela família de Gerusa Marcelo. “Terra de Graciliano, terra de todos nós”´ – diz um cartaz na estação ferroviária.  A casa nunca virou museu, mas a prefeitura sempre prometeu. Adriana, que mora nela, acha que a casa é igual a qualquer outra. A cidade continua na mesma miséria, entre as secas e as inundações. Existe a intenção de se construir um trem turístico ligando Quebrangulo a Palmeira dos índios, no percurso de 28 quilômetros.

Em Buíque, a vegetação é de palma, xiquexique, mandacarus, macambiras e coroa de frade. A Fazenda foi toda modificada, para criação de gado, produção de queijos e tem um poço artesiano. Vez por outra aparece um visitante para conhecer o lugar onde o escritor cresceu e tomava surras porque aprendeu gírias dos descendentes de escravos. Próximo à fazenda Pitadinho fica a vila São Domingos onde os Ramos colocaram uma loja depois de perderem tudo na seca. Por lá, naquela época, carro-de-boi era sinal de progresso.

Em Palmeira dos Índios, Graciliano foi prefeito de 1928 a 1930. Renunciou ao cargo dois anos depois, desgostoso com a política. Ele concorreu sozinho à eleição. Depois aceitou ser diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Como prefeito, fez o primeiro Código de Postura Municipal, com 82 artigos. Logo que assumiu, enviou ao governador um relatório transparente, no formato literário, em estilo inspirador da Lei de Responsabilidade Fiscal, O relatório também impressionou o editor Augusto Schimidt. Construiu estradas, teve a ideia de um açude e reclamou do contrato feito com o fornecedor de energia elétrica. Esse contrato foi  feito às escuras – disse. No seu tempo tinha 11 funcionários.

Conta a história que um dia um matuto foi ao seu gabinete e reclamou que, pela segunda vez, o gado do vizinho invadiu sua roça e destruiu a plantação de mandioca, com prejuízo de dois contos. O senhor deveria ter vindo há mais tempo – advertiu o prefeito, no que o matuto respondeu que o gado era do seu pai. “O prefeito, meu senhor, não tem pai, nem mãe”. Os repórteres constataram que por lá existem poucas homenagens (alguns seminários e eventos). Em 2017, o município sofreu uma das piores estiagens.

Na sede da prefeitura (o município de 74 mil habitantes, tem 129 anos de emancipação), não existe mais galeria dos prefeitos. O chefe de gabinete informou que os quadros foram recolhidos para recuperação, mas constatou-se que estão num canto mal conservados.

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