No último “Sarau A Estrada”, no final de novembro, tratamos da vida, obra e memória do escritor alagoano Graciliano Ramos. Neste texto colocamos tópicos sobre o livro “Vidas Secas” que neste ano completou 80 anos de escrito e permanece atual. Os governantes mudaram pouco seus métodos e as vítimas sertanejas continuam sofrendo com as estiagens e sendo usadas pela política do poderio.

BGraciliano Ramos aborda a questão da seca que depois de 80 anos continua exterminando plantações, animais e escorraçando os sertanejos nordestinos em retirada para outros lugares. O próprio autor de “Vidas Secas” foi um retirante em vida.

Sobre o livro, a vida do escritor, os lugares por onde passou com sua família, seu cargo na prefeitura de Palmeira dos Índios, seus acervos e sua memória, o “Estado de São Paulo” fez uma série de reportagens publicadas no início deste ano (2018) nos textos de Felipe Resk e Guilherme Sobota.

PRINCIPAIS PERSONAGENS – Fabiano, Sinha Vitória, os dois meninos, (o mais novo e o mais velho), Tomás da Bolandeira, Sinha Terta, a cachorra Baleia e o papagaio que é morto para matar a fome dos retirantes. Eram seis visitantes. Foi um romance de textos poéticas e ágeis que Graciliano fez depois de libertado da prisão, com intuito de sustentar a família.

Descreve Sinha Vitória no capítulo “Mudança” em fuga da seca com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Estirou o beiço indicando uma direção. Fala com sons guturais. Em viagem tem recordações confusas de festas, vaquejadas, etc.

Fabiano é o personagem sombrio, cambaio, de aió a tiracolo, cuia pendurada numa correia presa ao cinturão e espingarda de pederneira no ombro. É duro e ríspido com o menino mais velho que cai de cansaço e fome. No delírio, enxergam juazeiros longes e apressam o passo para descansar em suas sombras. Não existem juazeiros.

“Anda condenado do diabo” – gritou o pai para com o filho. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas. A catinga é vermelha, salpicada de manchas brancas que eram ossadas.

“Anda excomungado”. O Fabiano desejou matá-lo. O menino mais velho estava lá frio como um defunto. Para o narrador, a seca aparecia como fato necessário. O Vaqueiro precisava chegar, mas não sabia onde. Teve a ideia de abandonar o filho, mas o colocou no cangote. Braços finos como cambitos.

A Baleia tomava a frente do grupo. O papagaio foi aproveitado como alimento para matar a fome. Morrera na areia do rio. Baleia jantou os pés, a cabeça e os ossos, e não guardava lembrança. Procuravam raízes. A farinha acabara e não se ouvia um berro de rês perdida na catinga.

O louro só aboiava, tangendo gado inexistente, e latia. Quase nada falava porque a família quase nada conversava. Os juazeiros tornavam a aparecer. Alpercatas gastas, e Fabiano seguia na esperança de achar comida. Teve o  desejo de cantar.

Sinha Vitória acomodou os filhos que arriaram como trouxas. Estavam no pátio de uma fazenda abandonada. Barreiro vazio. Ossadas e o negrume de urubus. Baleia sentiu cheiro de preás e trouxe uma nos dentes. Ela podia ficar com os ossos ou o couro. Na lama rachada do bebedouro, Fabiano cavou a areia com as unhas. Pensa na bolandeira de seu Tomás, também uma figura da seca. A bolandeira estava parada. Ia chover e Fabiano seria o vaqueiro. A catinga ia ficar verde.

Mandacarus, xiquexiques, água salobra, raízes de macambira e juazeiros. O preá chiava no espeto de alecrim. Frasco de creolina para cura a novilha raposa. Alpercatas chape-chape percorrem veredas. Nem havia raízes na catinga para comer. Camarinha escura e cigarro com palha de milho. Fabiano imagina que é um homem. Não é um homem, apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.

Você é um bicho, Fabiano, fala o narrador. A seca obriga mastigar raízes de imbu e sementes de mucunã. Veio a trovoada e com ela o fazendeiro que quer expulsara Fabiano, mas se sujeitou a ficar como vaqueiro. Era mais forte que os xiquexiques, como as catingueiras e as baraúnas. Eles estavam agarrados na terra. Um vagabundo empurrado pela seca.

Vivia longe dos homens. Só se dava bem com animais. Seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Admirava as palavras compridas. Tentava, mas sabia que elas eram inúteis e perigosas.  Viu-se miúdo e enfezado.

Tomás da bolandeira era bom e tão lido, mas a seca levou tudo. Andava mole. Talvez já tivesse dado o couro às varas. O patrão berrava sem precisão. Fabiano ouvia as descomposturas. O amo só queria gritar, mostrar que era dono, e lá ia Fabiano de perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru. Viviam de trouxa arrumada. Anos bons misturados com os ruins.Tudo seco em redor. Patrão era seco também, arreliado, exigente, ladrão e espinhoso como pé de mandacaru. Seria que as secas iriam desaparecer.

Fabiano foi à cidade comprar corte de chita e querosene. Caixeiro furtava no preço e colocava água no querosene. Soldado amarelo pisou no seu pé e ele o xingou. Foi preso e apanhou de facão no peito e no lombo. Tinha imaginação fraca. Foi levado para o diabo do jogo. Nunca fora preso. Se revolta, mas se acostumara com as injustiças. Apanhar do governo não é desfeita. Só pensava na família e em Baleia. Coloca-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Se pudesse atacaria os soldados amarelos. Fabiano queria berrar para a cidade inteira. Entraria num bando de cangaceiros e faria estrago nos homens que dirigiam os soldados amarelos.

Sinha Vitória se zanga com Fabiano e reclama da cama de vara. Sonha com uma do tipo de Tomás da bolandeira, feita por carpinteiro com forro de couro. Baleia tenta agradá-la e leva um pontapé que se afasta humilhada para a sombra com sentimentos revolucionários. A cachorra é como pessoa da família, mas só leva pontapé. Magra, de pelo curto, cauda pelada e feridas. Devia estar de hidrofobia, Fabiano mata Baleia que morre pensando nas preás. Mulher é bicho difícil de entender, diz Fabiano. Sinha quer que o marido corte outras despesas para fazer a cama de couro. Fica azeda porque o marido gastou o dinheiro no jogo, na cachaça. Matuto anda assim, com pés de papagaio. A raposa passou no rabo a galinha pedrês.

O menino mais velho ouve da rezadeira de Fabiano a palavra inferno e quer saber da mãe o que significa. Ela diz ser coisa ruim. Pergunta se ela já esteve lá. Leva um cocorote. O inferno devia estar cheio de jararacas, e as pessoas que estavam lá recebiam cocorotes e pancadas. Recolhe-se pensando no inferno, palavra tão bonita. Sinha cata lêndeas no filho mais velho. O menino tinha vocabulário tão minguado quanto de um papagaio.  Imitava o berro dos animais, o barulho do vento e o som dos galhos. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam. O mais novo admira o pai com gibão e quer ser igual a ele, mas teme que manguem dele. Quando fosse homem, caminharia pesado, cambaio. Montaria num cavalo brabo e voaria na catinga como pé de vento. Fabiano andava banzeiro como um urubu. Uns riachos miúdos marejavam na areia como artérias abertas de animais.

Veio o inverno com as enchentes que matavam bichos e ocupavam grotas. Fabiano não pensava no futuro. Se a seca chegasse ele abandonaria mulher e os filhos. Coseria de facadas o soldado amarelo. Vão às festas na cidade com roupas de brim feitas por sinha Terta. Fabiano comprou dez varas de pano branco. As roupas tinham sido curtas, estreitas e cheias de emendas. Mundos diferentes da fazenda. Os negociantes furtavam na medida e no preço da conta. Todos lhe davam prejuízos. Tiravam-lhe o couro.

As contas não batiam, mas Fabiano receava ser expulso da fazenda. Aceitava o cobre. O sertanejo endividava-se. Na hora das contas lhe dava uma ninharia. As operações de sinha Vitória diferiam da do patrão. Diferença era proveniente dos juros – dizia o patrão. O que havia era safadeza, ladroeira. Com certeza havia um erro no papel do branco. Entregava o que era dele de mão beijada, como escravo. Um cabra ia lá puxar questão com gente rica. Foi vender o porco, e o agente cobrou imposto. Se a prefeitura tinha uma parte, estava acabado. Não lhe restava nem o direito de protestar. Baixava a crista. Vontade de gritar alto que o roubavam. A campina seca, o patrão e os agentes da prefeitura. Queria saber o tamanho da extorsão. Nas horas de aperto dava para gaguejar. Não conseguia dormir. Na cama de vara havia um pau com um nó, bem no meio.

Fabiano topou com o soldado amarelo que pisava nos pés dos matutos e teve vontade de matá-lo, mas era um cristão. De medo, o soldado batia os dentes como um caititu. Ganhava dinheiro para maltratar as criaturas. Teve lembranças insuportáveis da cadeia. Apanhar do governo não era defeito. Aquela cambada só servia para morder as pessoas. As aves de arribação matavam o gado e bebiam a água. Fabiano matava os bichos com sua espingarda de pederneira. Sinha Vitória tinha miolo e nas situações difíceis encontrava saída. Teria entrado no cangaço. Como estava, ninguém podia respeitá-lo. As aves de arribação. Talvez a seca não viesse. Riscos nos céus juntos com nuvens. O medonho rumor de asas a anunciar destruição. As fontes minguavam. Brancura das manhãs longas e a vermelhidão das tardes. As bichas excomungadas eram a causa da seca..

Finalmente, outra fuga da família. Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre. Desceram a ladeira, atravessaram o rio seco. Tomaram rumo para  o sul. Começava tudo de novo. Podia continuar a viver num cemitério? O céu estava negro de um lado e cor de sangue no outro. Manhã sem pássaros, sem folhas e sem vento. Fabiano tagarelava e agitava a cabeça para afugentar uma nuvem que escondia o patrão, o soldado amarelo e Baleia. Por que haveriam de ser sempre desgraçados, fugindo no mato como bichos? Chegariam a uma terra distante. Esqueceriam a catinga onde haviam montes baixos, cascalhos, rios secos, espinhos, urubus, bichos e gente morrendo? Resistiriam à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eram bois para morrer tristes por falta de espinhos. Mudariam para uma cidade, e os filhos frequentariam uma escola. E o sertão continuaria a mandar gente para lá. Mandaria para a cidade homens fortes, brutos como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.