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:: 10/dez/2018 . 23:32

A OBRA “VIDAS SECAS” DE GRACILIANO E SEUS 80 ANOS

No último “Sarau A Estrada”, no final de novembro, tratamos da vida, obra e memória do escritor alagoano Graciliano Ramos. Neste texto colocamos tópicos sobre o livro “Vidas Secas” que neste ano completou 80 anos de escrito e permanece atual. Os governantes mudaram pouco seus métodos e as vítimas sertanejas continuam sofrendo com as estiagens e sendo usadas pela política do poderio.

BGraciliano Ramos aborda a questão da seca que depois de 80 anos continua exterminando plantações, animais e escorraçando os sertanejos nordestinos em retirada para outros lugares. O próprio autor de “Vidas Secas” foi um retirante em vida.

Sobre o livro, a vida do escritor, os lugares por onde passou com sua família, seu cargo na prefeitura de Palmeira dos Índios, seus acervos e sua memória, o “Estado de São Paulo” fez uma série de reportagens publicadas no início deste ano (2018) nos textos de Felipe Resk e Guilherme Sobota.

PRINCIPAIS PERSONAGENS – Fabiano, Sinha Vitória, os dois meninos, (o mais novo e o mais velho), Tomás da Bolandeira, Sinha Terta, a cachorra Baleia e o papagaio que é morto para matar a fome dos retirantes. Eram seis visitantes. Foi um romance de textos poéticas e ágeis que Graciliano fez depois de libertado da prisão, com intuito de sustentar a família.

Descreve Sinha Vitória no capítulo “Mudança” em fuga da seca com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça. Estirou o beiço indicando uma direção. Fala com sons guturais. Em viagem tem recordações confusas de festas, vaquejadas, etc.

Fabiano é o personagem sombrio, cambaio, de aió a tiracolo, cuia pendurada numa correia presa ao cinturão e espingarda de pederneira no ombro. É duro e ríspido com o menino mais velho que cai de cansaço e fome. No delírio, enxergam juazeiros longes e apressam o passo para descansar em suas sombras. Não existem juazeiros.

“Anda condenado do diabo” – gritou o pai para com o filho. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas. A catinga é vermelha, salpicada de manchas brancas que eram ossadas.

“Anda excomungado”. O Fabiano desejou matá-lo. O menino mais velho estava lá frio como um defunto. Para o narrador, a seca aparecia como fato necessário. O Vaqueiro precisava chegar, mas não sabia onde. Teve a ideia de abandonar o filho, mas o colocou no cangote. Braços finos como cambitos.

A Baleia tomava a frente do grupo. O papagaio foi aproveitado como alimento para matar a fome. Morrera na areia do rio. Baleia jantou os pés, a cabeça e os ossos, e não guardava lembrança. Procuravam raízes. A farinha acabara e não se ouvia um berro de rês perdida na catinga.

O louro só aboiava, tangendo gado inexistente, e latia. Quase nada falava porque a família quase nada conversava. Os juazeiros tornavam a aparecer. Alpercatas gastas, e Fabiano seguia na esperança de achar comida. Teve o  desejo de cantar.

Sinha Vitória acomodou os filhos que arriaram como trouxas. Estavam no pátio de uma fazenda abandonada. Barreiro vazio. Ossadas e o negrume de urubus. Baleia sentiu cheiro de preás e trouxe uma nos dentes. Ela podia ficar com os ossos ou o couro. Na lama rachada do bebedouro, Fabiano cavou a areia com as unhas. Pensa na bolandeira de seu Tomás, também uma figura da seca. A bolandeira estava parada. Ia chover e Fabiano seria o vaqueiro. A catinga ia ficar verde.

Mandacarus, xiquexiques, água salobra, raízes de macambira e juazeiros. O preá chiava no espeto de alecrim. Frasco de creolina para cura a novilha raposa. Alpercatas chape-chape percorrem veredas. Nem havia raízes na catinga para comer. Camarinha escura e cigarro com palha de milho. Fabiano imagina que é um homem. Não é um homem, apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros.

Você é um bicho, Fabiano, fala o narrador. A seca obriga mastigar raízes de imbu e sementes de mucunã. Veio a trovoada e com ela o fazendeiro que quer expulsara Fabiano, mas se sujeitou a ficar como vaqueiro. Era mais forte que os xiquexiques, como as catingueiras e as baraúnas. Eles estavam agarrados na terra. Um vagabundo empurrado pela seca.

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