Carlos Albán González – jornalista

“Só toco berimbau”. Esta foi a resposta, acompanhada de gargalhadas, de Osmar Terra, quando os jornalistas lhe perguntaram sobre os seus planos para a cultura no Brasil. Indicado para compor o primeiro escalão do presidente eleito Jair Bolsonaro, o político e médico gaúcho, filiado ao MDB, terá sobre sua mesa, no Ministério da Cidadania, uma extensa pilha de problemas e soluções que desafiam qualquer administrador público.

No primeiro encontro com a imprensa, o ex-ministro de Michel Temer confessou, sem acanhamento, total desconhecimento sobre sua responsabilidade nas áreas cultural e esportiva. Acrescentou que recebeu de Bolsonaro somente orientações sobre os programas sociais do governo.

Além de sua aptidão no manejo – tenho minhas dúvidas – do berimbau, Terra mencionou a Lei Rouanet, alvo de críticas durante a campanha eleitoral do militar da reserva. O programa, que financiou movimentos culturais nos governos passados, passará por uma auditagem.

A gélida Islândia, situada no norte da Europa, foi citada por Terra, como um exemplo no combate ao uso de drogas pelos jovens, oferecendo-lhes atividades culturais nos horários ociosos. Está nos planos do futuro ministro distribuir instrumentos musicais aos adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

Aficionado pelos esportes, ex-judoca, comungo do sentimento de preocupação dos esportistas deste país. Todos perguntam: “Como vai conseguir esse senhor Terra, ao mesmo tempo, dedilhar a corda do berimbau e chutar uma bola?” Como você, Jeremias, batalhador pela sobrevivência, aqui, em Vitória da Conquista, dos projetos culturais se posiciona neste momento?

Um dos saraus A Estrada que completou oito anos em 2018, com temas, música, causos e declamação de poemas

Conheci Jeremias há mais de 30 anos, militando como repórter e editor de Economia,  e, posteriormente, na chefia da Sucursal de “A Tarde”, em Conquista,  numa época em que o jornal  gozava do respeito dos baianos. Aposentado, Jeré passou a se dedicar à cultura local, como uma forma de retribuir o carinho recebido dos conquistenses.

Jeremias abriu um espaço em sua residência, onde são realizados encontros culturais (literatura e música); lançou três livros (“A Conquista Cassada”, a Imprensa e o Coronelismo, Terra Rasgada e “Andanças” em via de lançamento); e criou o blog “aestrada”, onde se propõe publicar poemas e fotos, e lançar um CD.
Depois de ler sobre o último sarau cultural deste ano, que versou sobre a obra de Graciliano Ramos e os 80 anos de lançamento de “Vidas Secas”, do escritor alagoano, questionei sobre o descaso que é revelado pelo poder público quando se trata de incentivar esses embriões culturais que vicejam em diferentes pontos da cidade.

A Secretaria de Cultura de Vitória da Conquista, que também abraça o esporte, o turismo e o lazer, tem no seu manual de conduta “a promoção de políticas de incentivo e preservação à cultura do município, em suas diversas formas de manifestação, proporcionando meios para sua difusão na comunidade”. Tem mais: “Catalogar e registrar a história cultural da cidade, além de apoiar os eventos culturais independentes”.

Não tenho ciência de que algum funcionário da Tina Rocha tenha feito uma visita ao “Espaço Cultural A Estrada”. A secretária não pode, nas suas horas de trabalho, apoiar a cultura local, chutando o axé para escanteio; verificar que o gramado de R$ 1  milhão do “Lomantão” provavelmente será considerado como impraticável pela FBF, a poucos dias do início do Campeonato Baiano; que a área do Cristo, cartão-postal da cidade, precisa ser recuperada.

Conceder títulos de cidadão conquistense; requerer ao prefeito a colocação de quebra-molas, contrariando uma norma do Denatran; e votar moções de aplauso ou de repúdio, o que sempre gera trocas de insultos.  Estas são as atribuições dos doutos vereadores daqui e de quase todos os municípios brasileiros. Na verdade, desconhecem as necessidades dos seus eleitores. Excelências, concedam alguns minutos para ouvir e apoiar aqueles que, mesmo não sendo conquistenses de berço, se empenhem pela cultura local.