Foi uma noite memorável o último “Sarau Colaborativo” de 2018 que teve como tema “Os 80 Anos do Livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos”, realizado no sábado (dia 24/11), no Espaço Cultural A Estrada, com a participação dos frequentadores mais assíduos e visitantes que abrilhantaram o evento até altas horas da madrugada.

Como sempre acontece, o pessoal foi chegando logo cedo a partir das 20 horas para a confraternização, mas o tema do escritor alagoano, que fala sobre o retirante sertanejo e sua família que fogem da seca e sofrem com a opressão do patrão das terras, foi a estrela do Sarau que é aberto com um debate, seguido de cantorias de violas, causos e declamações de poemas, geralmente autorais.

Além da explanação do livro, da obra e da vida do autor nordestino feita pelo jornalista e escritor Jeremias Macário, a noite cultural reservava outras novidades, como o show dos músicos e compositores Mano di Sousa, Baducha, Dorinho, Gabiru e Marta Moreno que deixaram todos animados com apresentações bem ecléticas em termos de gêneros e estilos.

Outro grande momento do “Sarau A Estrada”, que completou oito anos de existência, foi o lançamento do projeto do “CD Sarau” que, na verdade, significa o registro histórico dessa atividade e está sendo elaborado por uma comissão com muito carinho e cuidado.

O CD é todo autoral e obedece ao mesmo formato do Sarau. Na abertura conta como tudo o que aconteceu desde 2010, com um pequeno grupo com o nome de “Vinho Vinil”, para celebrar com amigos os antigos discos que muitos denominam, de “bolachões”. O processo se evoluiu para noites culturais com diversidades.

O material que ainda se encontra em fase de conclusão, já contém 20 faixas gravadas entre músicas, causos e poemas, intercalados com composições, letras e textos de artistas locais frequentadores, ou que já estiveram em nosso Sarau em outras oportunidades.

É bom que fique claro que o nosso evento não é só de comidas e bebidas, para jogar “conversa fora”. Todos são acompanhados de um tema principal, não somente ligado à literatura. Aqui já discutimos sobre Geraldo Vandré, o poeta Castro Alves, o Nordeste de Gonzagão, seus costumes e folclore, Raul Seixas, Os Movimentos Revolucionário de 1968, Educação no Brasil, Formação e Colonização de Vitória da Conquista até os tempos atuais, dentre outros na área da política e até da economia, sem a danada da partidarização.

Neste do último sábado, dia 24, que mais uma vez contou com a presença de membros da Academia de Letras de Vitória da Conquista, o papo sério foi sobre “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, cujo livro entrou para a história do cinema através de Nelson Pereira dos Santos. Como nos outros saraus, todos contribuem no enriquecimento do tema através da troca de conhecimentos, num verdadeiro intercâmbio cultural.

A ideia para o próximo ano é agregar jovens estudantes ao nosso Sarau que sempre recebe visitantes convidados pelo grupo de frequentadores. A cultura tem que expandir e nada melhor que incorporar jovens que também têm sede de cultura. Vamos continuar abrindo com um tema, mas outras novidades vão surgindo, como a conclusão final do CD, e até a proposta já lançada de um documentário.

Sobre o livro (traduzido para 14 línguas), que versa sobre a seca, como diz o próprio título, vida e obras do escritor, adiantamos alguns tópicos da pesquisa feita pelo jornalista Jeremias Macário nessa primeira publicação.

VIDA, OBRA E MEMÓRIA DO AUTOR.

Nasceu em 27 de outubro de 1892, em Quebrangulo, Alagoas.

Seu pai Sebastião Ramos e sua mãe Maria Amélia se mudaram para a fazenda “Pitadinho”, em Buíque, Pernambuco, em 1895, mas perderam tudo com a seca. Montam um comércio na vila São Domingos.

Graciliano Ramos de Oliveira começa seus primeiros exercícios de leitura em 1898, com seis anos.

No ano de 1899, a família se muda para Viçosa, Alagoas.

Em 1904, Graciliano publica o conto “Pequeno Pedinte” em “O Dilúculo”, jornal do seu internato de estudo, com 12 anos.

Em 1905, o escritor muda-se para Maceió, para estudar no Colégio 15 de Março.

Em 1906 redige o periódico “Echo Viçoaense” e publica sonetos na revista carioca “O Malho”, sob pseudônimo de Feliciano de Olivença.

No ano de 1909 colabora com o Jornal de Alagoas e publica o soneto “Céptico”, como Almeida Cunha.

De 1910 a 1914 ajuda o pai na casa comercial “A Sincera” em Palmeira dos Índios.

Em 1914 embarca num navio para o Rio de Janeiro onde ingressa no “Correio da Manhã”, como revisor, e colabora com outros jornais do Nordeste, inclusive em o “A TARDE”. Seus textos terminam compondo a  obra póstuma “Linhas Tortas”.

Em 1915 retorna para Palmeira dos Índios devido a morte de seus três irmãos e um sobrinho, vítimas da peste bubônica. Em Palmeira, casa-se com Maria Augusta de Barros (quatro filhos)

No ano de 1817 assume a loja da família “A Sincera”, de produtos de fazenda, calçados e perfumarias.

Em 1920 morre sua esposa Maria Augusta, e em 1921 passa a colaborar com o semanário “O Índio”.

Em 1928 toma posse como prefeito de Palmeira dos Índios (eleito em 27) e casa-se com Heloísa Leite de Medeiros (quatro filhos).

Dois anos depois, em 1930, renuncia ao cargo de prefeito, em 10 de abril. Em maio muda-se com a família para Maceió onde assume o cargo de diretor da Imprensa Oficial de Alagoas. Publica artigos no Jornal de Alagoas.

Em 1931 demite-se do cargo de diretor da Imprensa. No ano seguinte de 32 começa a escrever “São Bernardo”.

Em 1933 publica seu primeiro livro “Caetés”, iniciado em 1925 e concluído em 28, mas revisto várias vezes. No mesmo ano de 33 inicia “Angústia” e é nomeado secretário Estadual de Educação de Alagoas (diretor de Instrução Pública).

No ano de 34 publica “São Bernardo”. Em março de 1936 é preso em Maceió e levado num navio para o Rio de Janeiro. No mesmo ano, sai a publicação de “Angústia”.

Em 1937 é libertado no Rio de Janeiro. Escreve “A Terra dos Meninos Pelados”, premiado pelo Ministério da Educação em gênero infantil.

No ano de 1938 publica “Vidas Secas” (80 anos), premiado em 1962 pela Fundação William Faulkner. No ano seguinte, é nomeado Inspetor Federal de Ensino Secundário do Rio de Janeiro.

Em 1940 traduz “Memórias de um Negro”, do norte-americano Booker Washington.

Em 1942 publica “Brandão entre o Mar e o Amor”, em conjunto com Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Jorge Amado e Aníbal Machado.

No ano de 1944 publica “Histórias de Alexandre” e, no ano seguinte, “Infância” quando se filia ao Partido Comunista Brasileiro, em 1945.

Em 1946 “Histórias Incompletas” e em 1947 “Insônia”. Traduz, em 1950, “A Peste”, de Albert Camus, e em 1951 é presidente da Associação Brasileira de Escritores.

Em 1952 viaja para União Soviética, França, Tchecoslováquia e Portugal.

Morre em março de 1953, no Rio de Janeiro. No mesmo ano é lançada a obra póstuma de “Memórias do Cárcere”, e em 1954 “Viagem”. Em 1962 – “Linhas Tortas” e “Viventes das Alagoas”. Em 1980, sua esposa Heloísa doa o acervo do marido para o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (USP). Em 1992 – publicação de “Cartas de Amor a Heloísa”. Realizou em vida cerca de 20 publicações de livros, fora artigos e comentários em jornais.

Seus livros foram traduzidos para 16 línguas (14 de “Vidas Secas”), destacando o alemão, francês, espanhol, sueco, dinamarquês, turco, flamengo, polonês, búlgaro, tcheco, romeno e holandês.

Graciliano Ramos aborda a questão da seca que depois de 80 anos continua exterminando plantações, animais e escorraçando os sertanejos nordestinos em retirada para outros lugares. O próprio autor de “Vidas Secas” foi um retirante em vida.

Sobre o livro, a vida do escritor, os lugares por onde passou com sua família, seu cargo na prefeitura de Palmeira dos Índios, seus acervos e sua memória, o “Estado de São Paulo” fez uma série de reportagens publicadas no início deste ano (2018) nos textos de Felipe Resk e Guilherme Sobota.