Carlos Albán González – jornalista

Colega e amigo Jeremias. Depois de ler seu elucidativo comentário sobre a revanche dos saudosistas da ditadura  no Brasil, voltei ao meu tempo de infância e juventude, quando ouvia de parentes e de membros mais antigos da comunidade galega de Salvador relatos assustadores sobre a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), vencida pelos nacionalistas liderados pelo general Francisco Franco, apoiado pelo nazismo de Adolf Hitler e o fascismo de Benito Mussolini.

Um milhão de espanhóis, a maioria civis, morreu durante o conflito, milhares deles vítimas dos bombardeios alemães a cidades do País Basco – o massacre em La Guernica está imortalizado na tela do pintor espanhol Pablo Picasso, exposta no Museu de La Reina, em Madri -, e outras centenas, torturadas e mortas nos campos de concentração nazistas, para onde foram enviadas. Os prisioneiros que permaneceram em território espanhol eram obrigados a trabalhar, sem remuneração, em obras públicas, como a construção de ferrovias.

Ponto de encontro de nostálgicos do regime ditatorial e atração turística, o Valle de los Caídos, localizado a 40 kms. de Madri para servir de sepultura ao militar, foi erguido entre 1940 e 1958 graças a exploração de mão de obra de centenas de republicanos. No gigantesco monumento estão também enterrados 33.872 nacionalistas mortos na Guerra Civil.

Com o objetivo de eliminar por completo o que restou do autoritarismo, o presidente do governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, pretende ainda este ano exumar os restos mortais de Franco e entregá-los à família. Estátuas estão sendo demolidas em todo o país, inclusive a principal delas, erguida na cidade galega de Ferrol, onde o general nasceu.

Sob o bordão “Caudilho da Espanha pela graça de DEUS” – por que os ditadores estão sempre fazendo referências (2º Mandamento: “Não tomar seu santo nome em vão”) ao Criador em suas falas? -, o generalíssimo, como fazia questão de ser chamado, com a vitória pelas armas governou a Espanha, com mão de ferro, até a sua morte em 20 de  novembro de 1975. As Cortes Franquistas, criadas por ele, se mantiveram no poder até 1977.

Como se vê, Franco sobreviveu aos seus “mestres”: Mussolini foi fuzilado pelos compatriotas em 28 de abril de 1945; Hitler e sua mulher Eva Braun suicidaram-se dois dias depois. Enquanto o nazismo é criminalizado em muitos países, o fascismo está cada vez mais vivo. Seu análogo, o franquismo, plantou a semente do ódio em várias regiões da Espanha. Esse sentimento floresceu no País Basco e, mais frondosamente, na Catalunha, cujas populações foram as mais oprimidas por Francisco Franco. Hoje se alimentam do desejo de se tornarem independentes do governo espanhol.

Com as benesses concedidas por Franco, o Real Madri foi escolhido pela FIFA como o maior clube do século XX, conquistando na época dezenas de títulos mundiais, europeus e espanhóis. Foi mais um componente no clima de revolta dos catalães, que se transporta para os estádios nos jogos entre Barcelona e Real Madri.

Salvador foi escolhida como uma das cidades brasileiras para sediar um centro de aprendizado, em nível universitário, da língua, cultura e história do país ibérico, dentro da linha franquista. O Instituto de Cultura Hispânica funcionava no Vale do Canela, com apoio da Universidade Federal da Bahia, e o respaldo financeiro do governo espanhol,

O fanatismo religioso; o autoritarismo; o nacionalismo exacerbado; o militarismo, o corporativismo nos moldes fascistas, a desigualdade social; o desapreço à saúde dos mais pobres; a censura à imprensa; a imposição de sua doutrina nas escolas, desde as primeiras letras; a perseguição aos homossexuais, imigrantes, comunistas e judeus. Essa era a temática da ideologia franquista.

Prezado colega, por medida de segurança dei um “descanso” – espero que por pouco tempo – à minha camisa oficial da “La Roja”, adquirida na “tienda” da Federação Espanhola de Futebol. O vermelho no Brasil é a cor do pecado. Ninguém deseja ser agredido covardemente por um fanático.

É meu amigo, pelo meu artigo já recebi comentários agressivos. O cara simplesmente me chamou de ancião.

Para mim não é depreciativo. Pior é o cara que já nasce ancião e escravo, sem viver, sem conhecer, sem sentir, nem dar o mínimo valor para a liberdade. Aliás, ele não sabe nem o que é isso. Não tem história.