Sem o pássaro preto, o cardeal, o azulão, o sabiá, o sanhaço, os periquitos, o galo de campina, o caboclinho, o papa capim, a coleira, as araras azuis, os papagaios, os tico-ticos, a nambu, a perdiz e outros animais silvestres da fauna como o tatu, o teiú e o veado, o nosso velho sertão, cansado e castigado por estiagens e ações dos homens, fica sem a sua verdadeira alma e vira um esquelético espantalho fantasmagórico.

Se alma é vida, quem vai cantar o sertão verde e renovado com as chuvas? Quem vai brindar com seus voos e agradecer a benção divina das águas caídas lá dos céus? Sem melodia e sem o estribilho das aves, a caatinga perde sua maior beleza e se torna um bioma sem ternura e sem os mistérios da vida. Não basta a sua aterradora desertificação que se vem processando há anos?

Prender seus pássaros e arrancá-los do convívio do seu lar é o mesmo que extirpar a alma do sertão. Nas gaiolas eles não cantam e fazem festa, lamentam a dor do cativeiro como o negro escravo do Alabama nas fazendas de algodão, ou no Nordeste nos engenhos de canas de açúcar.

Contra estes ladrões de almas e assassinos da fauna sertaneja, ainda bem que esta espécie de bioma, a única no mundo, tem contado com a ação do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia-Inema, do Ibama e dos movimentos ambientalistas em parceria com as polícias civil, militar e até a federal, como ocorreu recentemente (dias 24 a 28 de julho) em Senhor do Bonfim, no nordeste do estado.

Lá está a mão severa do primo Washington Macário de Oliveira, do Inema, com seus notáveis casos de disfarces para agarrar os criminosos do sertão. Como xerife durão que visita os mais longínquos lugares da Bahia, não costuma perder viagem, seja no campo em pontos mais escondidos ou nas feiras das cidades. Seu maior prazer é soltar os bichos, para raiva dos caçadores.

Em Senhor do Bonfim, tudo ocorreu na bem montada operação que teve como alvo principal o tráfico de animais silvestres. Os traficantes são bem astutos e sagazes, mas dessa vez, como em outras ocasiões, caíram na arapuca que eles mesmos armam na caatinga. Cerca de 500 espécies de aves da nossa fauna brasileira, como as citadas acima, foram apreendidas. Nem tudo está perdido neste nosso país. Estas ações também têm acontecido em outras regiões da Bahia, como em Paulo Afonso onde a ararinha azul tenta sobreviver.

Como sempre, os pássaros apreendidos foram levados para um centro de avaliação onde passarão por uma triagem. Após análise e os devidos tratamentos, as almas do sertão vão ser devolvidas ao seu habitat natural. Mesmo com a Lei de Crimes Ambientais 9.605/98 que em seu Art° 29 sentencia como crime matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, os homens continuam a agir e a cometer seus desatinos contra a natureza.

Estão sujeitos a multa que variam de 500 a 5.000 reais por cada pássaro apreendido, de acordo com o Decreto 6.514/08, que regulamenta a Lei de Crimes Ambientais.

Como se não bastasse o crime contra os pássaros, a operação também flagrou áreas de desmatamento, barramentos irregulares e degradação de nascentes. Os identificados foram autuados em atos administrativos emitidos pelo Inema, de acordo com o Decreto Estadual 14.024-12, artigo 254, inciso I parágrafo único.

As fiscalizações sistemáticas contra estes agressores do meio ambiente vão prosseguir, ainda mais repressivas. O cerco tem que continuar para que o nosso sertão viva com sua alma, e o homem tome consciência de que sem a preservação da natureza ele também é uma espécie em extinção, como já se vem verificando.