As imagens de multidões se arrastando como cobras pelos asfaltos e corredores de prédios quentes e desconfortáveis em longas filas para fazer uma biometria eleitoral dão a impressão de pessoas vivendo em cativeiros, ou em campos de concentração. Tudo não passa de um ultraje contra o povo quando os políticos lá em cima já fizeram suas armações para se perpetuarem no poder.

Nas chibatas das ameaças de que podem perder seus títulos e coisas mais em suas vidas como cidadãos, sem opção os eleitores são submetidos a um estafante processo de desgaste físico e psicológico, desde madrugada até à noite nas portas dos tribunais eleitorais e em outros locais que mais parecem currais. Vale a pena tanto sacrifício quando se tem um sistema eleitoral tão corrupto?

Senhoras e senhores pobres, pessoas de todas as idades saem de suas casas ao amanhecer do dia em conduções lotadas e logo depois vão se amontoando em filas intermináveis para pegar uma ficha ou senha para tirar uma impressão digital. Muitos chegam a atravessar o dia naquele tormento e até passam fome, sofrendo constrangimentos e humilhações.

Como nos cativeiros das filas para vacinação e marcar exames médicos no SUS, tem muita gente que não consegue ser atendida e retorna estafada aos seus distantes lares para começar toda maratona no outro dia. Os juízes e os responsáveis dão entrevistas patrióticas, explicando o inexplicável, cheias de embromações e ainda culpam o povo de ser negligente.

A mídia, por sua vez, repete as mesmas perguntas de sempre, diz o “óbvio ululante” sobre punições e outras bobagens, mostrando aquelas imagens degradantes de multidões sofridas, escravas dos donos de sempre, sem ao menos exercer o seu papel crítico de denunciar toda esta tortura imposta à população. Cadê o seu papel de guardiã e vigilante dos direitos humanos?

Mesmo com estas e outras aberrações contra os brasileiros que são obrigados a passarem por violentos vexames, a Defensoria e o Ministério Público, as comissões de direitos humanos, a Ordem dos Advogados do Brasil e outros organismos da sociedade nada fazem para cessar com essa cruel desumanidade. Impera o silêncio, e todos assistem passivas as cenas de horror.

Na banalização do mal, dos atos arbitrários e ditatoriais, da violência desenfreada, da negação constante dos direitos de cidadania, as pessoas terminam ficando insensíveis, paralisadas e achando que tudo é normal e comum. Não reagem e não se indignam com o massacre. Tenho nojo dessas “autoridades” quando dizem que “estamos tomando providências”, ou para justificar os absurdos, alegam que é uma determinação delas mesmas e ainda mandam prender quando alguém reclama e se revolta.