O POEMA DA CRIAÇÃO

No livro “Dos Sumérios a Babel”, o autor Federico A. Arbório Mella cita que, provavelmente, Hammurabi (1792-1750 a.C.) foi o maior rei da Mesopotâmia, e Babel era uma cidade próspera no mesmo porte de Assur, Larsa e Echunna. Para manter boas relações com estas potências, o jovem rei usou da diplomacia através de cartas com frases gentis e cheias de promessas.

Com suas habilidades, disciplina, acordos e força, Hammurabi conseguiu dominar todas as nações em torno do seu reino, inclusive Mari, do último Zimri-Lim. No decorrer de nove anos, fundou um império e empreendeu o grande trabalho de unificação entre sumérios, acádicos, amorritas, cananeus, assírios e tribos das montanhas. Proclamou-se, então, rei das Quatro Partes do Mundo, com o título de “Sol de Babel”.

No seu reinado, procurou montar um Estado centralizado, nomeando governadores a ele subordinados; criou taxas para os templos; distribuiu terras para seus soldados; e dividiu a população em classes sociais entre burgueses, plebes e escravos.

Seu propósito era criar uma Nação, e tão logo, reuniu seus sábios e ordenou que inventassem o acádico-babilônio como língua diplomática daquela parte do mundo. A unificação se deu também no plano religioso, não proibindo a liberdade de culto, mas impondo ordem entre os milhares de deuses semíticos e sumérios.

Nas escolas de teologia nasceram as grandes trindades de Anu, Enlil e Ea (Céu, Terra e Água Doce). Depois deles, Sin, Chamach, Ictar e um novo deus Abad, da tempestade. Marduk, o deus da capital Babel, assumiu importância emblemática. Para conferir-lhe esplendor, os sacerdotes criaram o “POEMA DA CRIAÇÃO”, o mais sacro da Mesopotâmia, chamado de “Enuma Elich”, o que significa “Quando no Alto”.

O Céu não tinha nome, e embaixo só existia o Apsu (o Oceano) e Mummu (reunião das águas doces com as águas salgadas). Como o Destino ainda não estava estabelecido, Apsu e sua mulher Tiamat criaram os primeiros deuses Lakhmu, Anchar e Quichar. Anchar procriou Anu, igual a si mesmo, e Anu fez Nudimmud (Ea, Enqui).

Depois deles nasceram muitos outros que tomaram toda terra fazendo muito barulho, não deixando Apsu e Tiamat dormirem em paz. Irritado, Apsu resolveu exterminar este enxame de vagabundos, seguindo os conselhos malignos de Mummu, mas a mulher se opôs.

As vítimas divinas choram, e o sábio Ea, compadecido, deteve a ameaça pondo em ação um esconjuro mortal com o qual consegue matar Apsu no sono. Depois se apodera de Mummu, amarra-o, tira-lhe a coroa, castra-o e lhe arrebenta o cérebro. O vitorioso fixa os lugares sagrados do oceano e ali estabelece sua residência.

Foi, então, no meio do Oceano, no Santuário dos Destinos, que a mulher de Ea colocau Marduk no mundo, o mais sábio dos deuses. De belas formas, nutrido com leite divino, seu pai lhe deu duplas virilidade, visão e audição. Quando Marduk estava irado, da sua boca saiam chamas e seu esplendor era igual a de dez deuses.

Do outro lado, triste por causa do assassinato do seu marido, Tiamat, como vingança, criou horríveis monstros (víbora furiosa, grande leão, cão raivoso, homem-escorpião e outros animais), para lutar contra os deuses. De um destes, denominado de Quingu, nomeia-o como marido e comandante-chefe com poderes divinos. Amarra em seu pescoço as Tábuas do Destino.

Ela e seu exército declaram guerra aos deuses. Ea desmaia ao vê-la. Recuperado, vai ao pai Anchar que também fica empalidecido e envia Anu a Tiamat para um acordo. Ao ver aquele exército horrível, Anu foge e, temeroso, reúne a assembleia dos deuses. No voto, ninguém quer enfrentar Tiamat. Sem opção, Anchar designa o corajoso Marduk para a batalha.

O deus se apresenta para a empreitada, mas quer saber com quem vai lutar. Anchar dá a entender que se trata de Tiamat e seu séquito de monstros, mas ele não se intimida e se diz pronto para partir. No entanto, pela vitória Marduk impõe condições, e uma delas é que seu destino seja mudado, que lhe seja dado um lugar proeminente na hierarquia divina.

Para decidir a exigência, realiza-se uma assembleia entre os deuses, regada a banquete. No final, Marduk foi honrado entre os grandes deuses como o vingador e, ao sentar-se perante à assembleia, foi-lhe concedido a realeza do poder sobre o universo das coisas. “Que as tuas armas aniquilem os inimigos”. Sem perder tempo, Marduk arma-se de flecha, arco, uma grande rede, a erva do veneno e como aliados escolhe os sete ventos impetuosos.

No início ele desfalece quando vê a boca escancarada de Quingu, e Tiamat solta gritos atrozes de maldições contra Marduk. O temor é substituído pela ira e o deus enfurecido a insulta e a desafia para o duelo. Envolvida pela raiva, Tiamat se lança contra o inimigo com as faces abertas, prontas a abocanhá-lo.

O deus aproveita o momento e joga dentro dela o vento mau que a impede de fechar a boca e, imediatamente, sua mortífera flecha que atravessa seu coração. Seus seguidores tentam fugir, mas Marduk apanha todos com a rede, pisa sobre suas cabeças e os faz prisioneiros.

Depois corta a carcaça de Tiamat em duas partes como uma ostra. Com a metade superior forja o Céu, fixando-o com ferrolhos e pondo-lhe guardiães, para que suas águas não fujam. No Céu coloca a morada dos deuses, as estrelas, os signos e a Lua, confiando-lhe a noite. Com a outra parte cria a Terra.

De Quingu, tira as Tábuas do Destino e pendura-as no seu pescoço, tornando-se assim o dominador do universo. Depois, o mata. Com seu sangue conforma a argila e cria Lilu, o homem, e em seguida os animais, as plantas e as várias partes do mundo. Ao homem designa o serviço dos deuses, e estes foram divididos por Marduk em dois grupos: Os Iguigui (deuses do Céu), e os Anunnáqui, os deuses da Terra.

No final, todos os deuses exprimem sua gratidão levantando para Marduk um grande santuário, a Torre de Babel (Entemenanqui). No dia da inauguração oferecem um suntuoso banquete e cantam em louvor ao seu salvador.

O poema era lido por ocasião do Ano Novo com representação sacra e alusões a significados astrais. Tiamat reviverá ainda na simbologia da Bíblia (monstro análogo nos Livros de Jó, Salmos e em Isaias) onde toma o nome de Leviatã. No herói Marduk, autores se inspiraram no arcanjo São Miguel e São Jorge.

O CÓDIGO DE HAMMURABI

No Susa, em Elam (1902), arqueólogos encontraram uma famosa estela de Hammurabi, com mais de dois metros de altura. Sobre toda parte inferior da obra de arte estava gravado uma espécie de código civil e penal. Nas escolas, Hammurabi tornou-se célebre e conhecido como primeiro legislador da história.

Explica, no entanto, o autor do livro “Dos Sumério a Babel”, que ele não foi o primeiro, nem o grande, mas limitou-se a transcrever uma série de sentenças já julgadas, tornando-se válidas em todos os lugares. No direito civil se inspirou nas consagradas normas sumérias e acádicas. No penal, introduziu a “Lei de Talião”, recolhida de alguma tribo do deserto, na base “do olho por olho e dente por dente”, que Moisés adotou seis séculos depois.

Segundo autores entendidos no assunto, a obra de Hammurabi é considerada como retrocesso em relação à civilização suméria. No livro, o autor cita uma série de artigos conhecidos das leis de Ur-Nammu, como “se um homem feriu o pé de um outro, pagará 10 siclos de prata. Se um filho ofender sua mãe (…) seja expulso de casa.

Nas novas leis de Hammurabi, se um homem quebra um osso a um outro, se lhe quebrará o mesmo osso. Se um filho bater em seu pai, que se lhe corte a mão. A pena de morte é prevista para furto com arrombamento, receptação, cumplicidade, saques, adultérios e estupros.

“Se um mestre de obras construir uma casa, e a casa desabar causando a morte do proprietário, o mestre de obras será morto; se perder a vida também o filho do dono, será morto também o filho do mestre de obras. Se o cidadãos bater na filha de outro cidadão e esta morrer, a filha dele será morta”.

Estas leis, entretanto, não são iguais para todos. Se um cidadão vaza um olho ou quebra um osso a um cidadão de nível inferior, pagará uma mina de prata. Se a um escravo, pagará a metade de seu valor de aquisição. Na prática, estas leis se tornavam inoperantes por outras providências terríveis contra o arbítrio, como, “se um cidadão culpa outro por homicídio sem poder fornecer provas, será morto”.

O mesmo acontece para falso testemunho em processos que impliquem pena capital. Um juiz que tenha emitido uma sentença viciada pagará 12 vezes o valor do objeto da querela e será destituído. A pena de morte só era aplicada em casos de indiscutível culpabilidade.

Deixando de lado a “Lei de Talião”, existia também indulgências nos confrontos dos mais fracos, sobretudo com os devedores pobres. Defendia-se a pequena propriedade rural e punia-se o peculato e a corrupção administrativa. Quem se sentia injustiçado podia recorrer ao rei, que de imediato realizava um inquérito. Qualquer cidadão poderia citar em juízo a Coroa, se achasse que o rei cometeu algum abuso.

Na guerra, a lei prescrevia que a população civil das cidades conquistadas deveria ser poupada nos limites do possível. Hammurabi deixou um império em perfeita ordem, com finanças prósperas e comércio em expansão. Fez de Babel a capital cultural de toda Ásia.

Na língua acádico-babilônia foram traduzidos, nesta época, o Poema de Guilgamech, o mito de Etana e muitos outros. A escola teológica do Esaguila tornou-se a mais importante da Mesopotâmia. O rei deixou para Babel um patrimônio cultural reconhecido no mundo.

No Livro do profeta Jeremias está dito que Babel tornou-se “uma taça de ouro nas mãos do Senhor, que inebriou toda a terra”. Marduk tornou-se o mais importante deus dos semitas pelo prestígio que derivava da cidade da qual era deus, não pela imposição de Hammurabi, pois seu deus era Chamach.

A partir do seu apogeu, Babel passou a ser considerada por toda Mesopotâmia, como Babilônia, só que Babel era a cidade, e Babilônia a região. O escritor faz esta referência para que não haja confusão nas interpretações entre uma coisa e outra.