Na Idade Média o latifúndio e a burguesia, siameses dos reis, príncipes e rainhas, contrastavam com as paisagens sociais rotas e sujas da pobreza e da extrema miséria. Vários estados paralelos dominavam o Velho Mundo Europeu. Sem higienização e serviços de saneamento, Londres, Paris, Madrid, Lisboa, Roma e outras capitais viviam infestadas de ratos de todas as espécies que logo propagaram pestes e mortes em massa.

Todo este cenário serviu de inspiração para o escritor Victor Hugo escrever o clássico “Os Miseráveis”. Se nas ruas, casebres, vilas e povoados a degradação humana era bem visível e aterrorizante com a fome, quem roubava um pedaço de pão caia nas masmorras fedorentas cheias de bichos. O condenado morria na podridão engolindo baratas. Lá fora os coches luxuosos transportavam a elite dos palácios para seus teatros, festas de bailes, encontros fortuitos e de negócios regados a banquetes.

Mais de quinhentos anos depois cá estamos no Brasil dos mosquitos da Dengue, da Chikungunya, da Zica, da Febre Amarela, da Malária, dos estados paralelos do terror, das facções de traficantes que hasteiam suas bandeiras nos presídios medievais dos esquartejamentos, e também dos ratos calungas que invadem becos, ruas, casebres e palafitas. Ao lado dos afortunados e poderosos em suas mansões, os quais viajam em aviões e carros luxuosos, a plebe fabrica seus heróis de mentira e cria seus falsos reis, príncipes e rainhas.

Lá do outro lado do Atlântico existiu uma derrubada da Bastilha e cabeças rolaram durante uma grande revolução que durou muitos anos. Cá perduram os estados paralelos dos poderes dentro de um Estado falido, sem moral e sem ética, que pede ao povo para se livrar dos mosquitos nos quintais onde as moradias convivem com esgotos a céu aberto, sem saneamento básico e água potável.

Neste Brasil da proliferação dos mosquitos, as regiões mais pobres (Norte e Nordeste) são as mais afetadas com doenças mortais que até atacam os cérebros dos bebês nos ventres de suas mães, provocando a microcefalia. Através de suas lágrimas, somente elas sabem quanto a dor é tão profunda. As propagandas institucionais deste Estado corrupto e as matérias da mídia recomendam como uma das soluções que as pessoas passem diariamente repelentes em seus corpos.

Tudo isto soa como um grande insulto aos pobres e aos quase 13 milhões de desempregados que não têm dinheiro suficiente para a alimentação quanto mais para comprar repelentes nas farmácias. O pior é que a mídia burguesa entra neste jogo e entrevista mulheres e famílias de maior poder aquisitivo, bem arrumadas e todas vestidas, ensinando a passar repelentes em seus filhos.

  As imagens na televisão mais parecem propagandas dirigidas e encomendadas pelos grandes laboratórios da indústria química. Não se sabe se são propositais ou incompetência jornalística mesmo. Por que as reportagens não vão às periferias pobres indagar se aqueles moradores têm condições financeiras de adquirir um tubo de repelente por semana ou mais que isso, a depender do tamanho familiar?

Para não citar outros absurdos e paradoxos com os quais somos obrigados a conviver, como as orientações para que os brasileiros façam constantemente exames de prevenção contra doenças graves como câncer, enfarto do coração, diabetes e outras, quando sabemos que faltam médicos nos postos de saúde, nos hospitais e o SUS é precário, vou ficar por aqui  nos mosquitos.

Não se pode condenar, por exemplo, a automedicação num país onde a grande maioria da população não tem acesso à saúde como deveria. Não se trata de uma cultura popular, mas de uma necessidade de cura e até mesmo de um pedido urgente de socorro em muitos casos, se bem que não seja o correto.

Por enquanto vamos ficar nos mosquitos porque, como disse meu colega jornalista Ruy Espinheira Filho, o povo brasileiro tem o triste destino de esperar. Segundo ele, o Brasil é um labirinto de monstros, e Teseu não aparece para nos salvar. “Alguns acham que poderíamos ser nosso próprio Teseu e acabar de uma vez por todas com os monstros, mas a maioria continua preferindo esperar”.