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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

O CARNAVAL DA MORTE E A CPI DO NADA

Foi só o número de mortes e casos da Covid-19 baixar para os empresários, que só visam lucro, pressionar o prefeito de Salvador, Bruno Reis, para realizar o carnaval no início do próximo ano, mesmo contrariando posições de infectologistas e patologistas. Eles não estão nem aí para a vida! São uns genocidas, corruptos e psicopatas.

Caso aconteça a festa, pode desde já ser chamada de mensageira de mais mortes. Assim, todo esforço empreendido no sentido de exterminar este maldito vírus do nosso convício pode ir por água abaixo. O mais irônico (é subestimar a inteligência dos outros) é que o evento pode ocorrer dentro dos protocolos recomendados pela ciência.

Gostaria de saber como seguir essas normas numa festa de massa, de multidões alcoolizadas pulando corpo a corpo nas ruas e avenidas de Salvador, ainda mais com turistas vindos de todas partes do Brasil e de outros países, com todo tipo de variante? Será que algum cientista aí pode me explicar se isso é possível?

Além de ser da morte, pode ser apelidado também de carnaval da insensatez, quando em muitas nações europeias está se registrando uma alta de contaminações, como no Reino Unido e no Leste Europeu. Como a prefeitura vai controlar a entrada de foliões negacionistas brasileiros e de outros lugares que não se vacinaram?

Vai ser um carnaval de bandinhas e pequenos blocos isolados, sem os megatrios elétricos e os famosos camarotes? Vai ser uma festa fechada com uma quantidade determinada de pessoas? Não me venham com essa de que os acessos serão controlados somente para aqueles que já foram imunizados com a segunda dose.

Segundo as estatísticas, no Brasil de hoje, 18 milhões ainda não receberam essa segunda dose, e aí é onde mora o perigo da danada voltar com toda força. Além do mais, nem se sabe quantos milhões de psicopatas não tomaram nem a primeira dose, seguindo a voz de um maluco capitão-presidente que associou vacinas a AIDS.

Além de ser temerário e colocar o dinheiro acima da vida, esse carnaval ainda pode comprometer o São João, em junho. Nesse caso, sem contar as vidas perdidas, o prejuízo pode ser ainda bem maior. Não se sabe ainda qual a posição do Governo do Estado, mas em se tratando de ano de eleições, tudo pode ocorrer.

A CPI DO NADA

Outro assunto que, se me permitem, quero aqui abordar em nossa conversa é sobre o final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado, depois de longos seis meses de xingamentos, discussões e relatos de milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas.

Existem partes, como da empresa paulista de saúde, que tratavam os pacientes como cobaias, utilizando o Kit Covid, que mais lembram os crimes nazistas de extermínio de judeus, ciganos e discriminados durante a segunda Guerra Mundial.

Apesar de todo esse aparato de barbaridades, apontado no relatório, principalmente cometidas por um genocida presidente, alguém aí acha que essa CPI vai dar em alguma coisa com aquele procurador Geral da República no cargo? O Augusto Aras é simplesmente um pau mandado do capitão e envergonha a imagem da Bahia de Ruy Barbosa e tantas outras personalidades importantes da nossa história. Nesse nosso Brasil atual, é claro que essa CPI não vai dar em nada.

Mesmo assim, entendo que essa Comissão serviu para expor a podridão dos fatos de um presidente desequilibrado, sem nenhuma condição de exercer a função maior da pátria maltratada. Serviu para mostrar as tramas das corrupções, embora seguidores da morte digam que ele é um governo sem malfeitos. Serviu para mostrar como aconteceu o genocídio de milhares e milhões de brasileiros, por pura negligência de um governo que queria adotar a imunidade por rebanho e não comprar vacinas.

O Bozó se acha um deus onipresente (coisa de maluco mesmo) que age como ministro da Saúde (um manda e o outro obedece), procurador da República, diretor Geral da Polícia Federal, ministro da Educação, do Meio Ambiente, que está sendo destruído, e das Relações Exteriores, principalmente.

No nosso país de hoje, infelizmente, não é possível se fazer um diagnóstico ou um Raio X do Brasil. É o absurdo dos absurdos, e nem historiadores, sociólogos, cientistas políticos e psiquiatras conseguem explicar esse inexplicável. Por mais que seja forte e mestre das palavras, que se use o raciocínio lógico, fica difícil dar uma definição exata sobre que Brasil é esse e como chegamos a esse ponto tão trágico!

QUE DEMOCRACIA É ESSA?

Dizem que temos uma “República Democrática de Direito”, termo introduzido na Constituição de 1988, mas que democracia é essa onde praticamente a população tem pouca participação nas decisões do governo? O que temos, na verdade, é um República Oligárquica de Direito, somente voltada para alguns.

Nesses mais de 500 anos, desde os tempos coloniais, tivemos mais tempo de governos autoritários, comandados pelos interesses de uma elite burguesa capitalista discriminatória que sempre fez de tudo para negar qualquer ascensão aos mais pobres e manter as injustiças sociais, que “democráticos”.

Sempre vivemos sob a tutela da submissão e do chicote. Acho engraçado e irônico, até mesmo uma piada, quando tem gente que repete, maquinalmente, que todos somos iguais. Isso não existe num país de 20 milhões de famélicos e 14 milhões de desempregado. Vivemos no momento, com um capitão-presidente, uma subdemocracia, num regime político incompleto.

Há pouco mais de 30 anos saímos de uma ditadura civil-militar de generais a serviço do capital, que oprimiu, torturou e matou centenas de opositores. Depois entramos num neoliberalismo e num populismo onde um presidente, para se manter no poder, se coligou com a pior espécie de empresários e políticos corruptos. O resto, todos sabem no que deu.

Não vou falar nesse atual governo, porque não merece comentários, nem que se gaste muito tempo de discussão. Simplesmente voltamos à Idade da Barbárie, da estupidez e do atraso. Não estamos aqui discutindo ideologias de direita, esquerda ou extrema-direita.

Nunca na história chegamos a esse ponto. É um caso de psiquiatria, para ser analisado por uma equipe especializada em distúrbio mental, ou talvez os espíritas e a cultura ioruba expliquem através das reencarnações vindas de nossos antepassados para o presente.

Não é apenas uma eleição de presidente, governadores e parlamentares que dita que vivemos num regime democrático. O voto como é exposto e formulado no Brasil, num formato arcaico de complô para que tudo continue no mesmo, nas mãos das castas dos três poderes, não passa de uma farsa de cabresto para fisgar os ignorantes e incultos.

Democracia é muito mais que isso. Democracia não é ter um dos piores índices do mundo em desigualdade social. Democracia não é tirar nota baixa em educação; ter mais de 60% da população sem saneamento básico; e nem ter milhões morrendo nos corredores dos hospitais por falta de atendimento médico.

Democracia não é só você abrir a boca e falar o que pensa dos governantes (isso hoje está até sendo vigiado), nem tampouco xingar quem quer que seja e, muito menos, atentar contra a liberdade.

Vivemos há séculos num engodo histórico de que estamos em plena democracia. Isso não passa de uma grande mentira. Temos e sempre tivemos um regime tupiniquim sui generis, não existente em parte nenhuma do mundo.

A IDEOLOGIA CONTRA A FOME

Bilionários passeiam no espaço com seus foguetes e lá de cima dizem que a terra é toda azul, quando, na verdade, ela já está cinzenta e esburacada de tanta destruição. Nela os furacões, os ciclones, as nuvens de poeiras, as tempestades de ventos, os vulcões, as enchentes, os terremotos, a fumaça das queimadas, as secas e a fome estão fazendo dela o planeta em extinção.

Cada um discute e defende sua ideologia do ódio e da intolerância quando todos deveriam se unir em torno de uma só ideologia para combater essa outra pandemia que mata milhões lentamente por ano. Para esta, a ciência nunca vai criar uma vacina que a cure. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, mas tem 20 milhões passando fome.

De acordo com pesquisas, mais da metade da população, ou seja, mais de 100 milhões estão em insegurança alimentar. O Brasil está no mesmo patamar nutricional de 2004. Diversas organizações e grupos isolados têm procurado atuar em campanhas de doações para auxiliar essas pessoas em vulnerabilidade.

Sabemos que essas ações são paliativas porque, conforme demonstrativo do quadro, o problema só faz aumentar. Essa pandemia não exige intubação, mas tem um kit comprovado de cura que é chamado de comida na mesa de todos, três vezes por dia. Seu protocolo de proteção é bem conhecido e não tem contraindicação. Não precisa de máscara e de álcool, e as pessoas podem se aglomerar quando estão de barriga cheia.

Na terra, que do alto se mostra azul, mas não é bem assim, quase um bilhão passa fome diariamente, principalmente nos continentes africano e sul-americano. Dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional apontam 17 anos de retrocesso na política de combate à fome. Lamentavelmente ela virou moeda de voto, e esse processo nunca se acaba.

No Nordeste, o índice de insegurança alimentar chega a 72%, muito acima do número nacional que é de 55%. Com tanta miséria, ainda existe o Dia Mundial da Alimentação, ocorrido no último sábado, mas quase ninguém se lembrou disse porque não existe a ideologia da fome.

Enquanto isso, nas redes sociais proliferam os xingamentos, as fake news, os textos cheios de erros de português com “conteúdos” homofóbicos, racistas e de intolerância religiosa. Cada um cria em si o seu Deus moralista, vingativo, de medo, hipócrita, mentiroso, mas nem está aí para os famintos jogados nas sarjetas das ruas. Com suas bíblias surradas pensam apenas em converter os outros. Acham que tudo é desígnio de Deus, outros de Zeus, Javé ou Jheová.

RIGIDEZ NAS REGRAS EMPERRA PROCESSO VACINAL EM CONQUISTA

Funcionário público qualificado não é sempre o que cumpre à risca as regras emitidas pelo chefe do poder ou por seu superior da área, mas aquele que sabe flexibilizar na hora correta para dar andamento e acelerar o trabalho. No caso particular, estou me referindo ao processo de vacinação em Vitória da Conquista que termina sendo emperrado por causa de determinada rigidez nas regras impostas.

No dia de ontem (22 de outubro) pela manhã, com meu cartão da Covid-19 completando exatamente seis meses da segunda dose (22 de abril) me dirigi ao Posto de Saúde da Vila América para receber a dose de reforço, mas fui barrado porque ainda não tinha completado 75 anos (faltam três meses). A fila estava pequena (cerca de 10 pessoas) e percebi que havia imunizantes sobrando.

Tentei convencer o funcionário que estava encarregado de averiguar a documentação de que a data de seis meses entre a segunda e a terceira estava correta, mas ele não cedeu ao meu argumento, mesmo tendo pouca gente na fila de vacinação. Apenas me disse que tinha que cumprir as duas regras básicas. Quero deixar bem claro que não estava ali querendo privilégios ou furar a fila de ninguém.

Ora, se já estava no local, na condição de idoso, e a demanda era pequena, por que não flexibilizar e adiantar mais uma vacinação? Caso houvesse 100 ou mais pessoas, iria entender que deveria cumprir a norma estabelecida da idade, para não tomar o lugar de outrem, mas não era a situação.

Como não fui acolhido na minha modesta argumentação, fui obrigado a retornar à minha casa sem receber a vacina. Muitas pessoas já passaram por esse mesmo problema e resolveram não mais retornar, o que significa um retardo na imunização contra o vírus, como vem acontecendo em Vitória da Conquista.

Em minha opinião, o que está faltando é mais entendimento e comunicação entre as equipes de vacinação. Nem estava me atentando para a idade, mas observando o prazo de seis meses estabelecido nas recomendações da ciência. Como a procura estava pequena e havia doses suficientes, seria até mais sensato adiantar a aplicação para avançar o processo e lá atrás não perder o medicamento por invalidez.

Conquista ainda está efetuando a dose de reforço para idosos a partir dos 75 anos, enquanto outras cidades, como Salvador, já planejam atingir o público jovem de 30 anos. Nesse ritmo, Conquista só vai alcançar esse grupo no próximo ano, principalmente com essa rigidez nas regras, deixando de vacinar uma pessoa por causa de uma pequena diferença na idade, com pouca gente na fila.

AS CULTURAS OCIDENTAL E NATIVA NA VISÃO DO INTELECTUAL SOYINKA

No livro “Intelectuais das Áfricas”, no capítulo em que a professora Divanize Carbonieri fala do nigeriano Wole Soyinka, são comentadas duas obras importantes do africano, o romance The Interpreters e a peça A Dance of the Forests que tratam do passado ancestral do período colonial e do presente representado na pós-independência.

Seus personagens do presente, na verdade, viveram num passado onde cometeram crimes e erros que agora refletem numa Nigéria emancipada, cujas elites negras são tão ou mais nefastas que os colonizadores. Os personagens do agora precisam se redimir de seus pecados para que haja uma renovação do país.

O romance The Interpreters (1965) se desenrola em torno de um grupo de jovens intelectuais nigerianos que retornam de viagens de estudos da Europa ou nos Estados Unidos e agora atuam em cidades de seu país natal.

Eles desempenham a função de interpretes entre a cultura ocidental, que assimilaram em sua educação, e a cultura nativa africana. Como explica Divanize, é uma tradução marcada por niilismo e decepção. A desilusão se dá em relação à elite nativa que chegou ao poder após a descolonização do país e que se revelou pior que os antigos colonizadores.

O romance descreve narrativas que questionam as consequências do colonialismo, mas também os resultados dos movimentos nativos de resistência depois que eles chegaram ao poder. Não parece existir nenhuma solução fácil e pronta para a Nigéria, conforme narrativas dos personagens do romance. Eles são tomados por dúvidas e incertezas.

O nacionalismo que havia alimentado protagonistas de acontecimentos anteriores, agora se tornou problemático, porque não respondeu às expectativas dos africanos. Casos de corrupção, golpes, guerras étnicas, desmandos e estabelecimento de regimes ditatoriais foram alguns dos feitos dos governantes nativos que haviam lutado sob a bandeira da unificação nacional e se beneficiado de seus resultados.

No livro, os deuses ou os orixás iorubas, são retratados através de seus personagens, como na pintura que Kola produz sobre eles, como modelos para dar forma humana a essas entidades divinas. No romance, Soyinka entra no aspecto da apostasia do artista que procura se afastar de uma sociedade corrompida, a qual não tem mais esperança de reformar. No entanto, ele ensina que “o artista não deve paralisar suas ações pelo medo de ser punido pelas forças restritivas e autoritárias de sua sociedade”.

Os protagonistas de Soyinka são homens para quem um retorno completo à tradição não é mais possível nem desejável, pois eles têm a missão de sair da inércia e construir, na Nigéria, uma nova moderna nação. Entre os deuses orixás do universo ioruba, Soyinka prefere Ogum que, mesmo errando, quando foi embebedado por Exu, se arrisca para conseguir a autorrealização.

Para Spyinka, foi a única divindade que buscou o caminho do conhecimento e utilizou os recursos da ciência para abrir uma passagem através do caos primordial para a reunião dos deuses com o homem. Ogum pode ser entendido como um artista porque ele é o primeiro ferreiro, o primeiro a forjar suas armas a partir do metal. Ele representa o espírito criativo da humanidade.

Na concepção de Soyinka, Oxalá apresenta as qualidades de acomodação dos indivíduos e da sociedade como um todo. Em Ogum, ele enxerga a energia de ação necessária para que as sociedades sejam transformadas e avancem para seu progresso.

Na peça “A Dance of the Forests”, escrita para celebrar a independência da Nigéria, em 1960, a figura do deus Ogum surge novamente para dar forma à visão mítica, estética e política de Soyinka. Também a obra está marcada pela decepção. O que deveria ser euforia pela independência, o que existe é uma ênfase na amarga reavaliação do passado e de suas continuidades no presente.

Seu caráter de desilusão se dá pela constatação de que os erros cometidos no passado pela coletividade não serviram de lições para que o presente da jovem nação nigeriana fosse mais acertado. O fim da dominação estrangeira não significa necessariamente que as coisas serão melhores porque os próprios africanos têm que se haver com a responsabilidade de suas falhas no passado para construir uma realidade mais justa na atualidade.

O cenário da peça é uma cidade ioruba que, em séculos passados foi governada pelo imperador Mata Kharibu. Um grupo de pessoas invoca a presença de seus ancestrais para fazer parte da Reunião de Todas as Tribos.

Eles esperavam que o Rei da Floresta lhes enviasse figuras éticas e de moral que tivessem realizado grandes feitos quando eram vivos. No entanto, o Rei da Floresta manda espíritos perturbados, vítimas desse passado glorioso que retornam para confrontar os descendentes de seus malfeitores.

Na cultura ioruba, os vivos são reencarnações de seus ancestrais. Feitos grandiosos no passado refletem uma vida dignificada no presente. O oposto também é verdadeiro. Os personagens dos mortos tentam se aproximar dos vivos que lhes fizeram mal em vidas passadas, visando buscar ajuda para obter a reparação pelo seu sofrimento. Os vivos não estão dispostos a dar ouvidos aos ancestrais. Os protagonistas da peça cometem malfeitos no presente, repetindo os mesmos erros do passado. Vida e morte, construção e destruição são os temas que estão na base da peça de Soyinka.

SALVE, SALVE TODOS OS POETAS!

Enxergar o invisível aos olhos dos outros; ver o que muita gente não vê; protestar; denunciar; descrever o belo e o feio; cantar o amor; pegar o horizonte e o pôr-do-sol com a mão; entrar na alma de alguém; saber como extrair espinhos de uma árvore; fazer chorar e rir; e ainda dizer que a vida é assim mesmo, com ou sem sentido.

Quem sou eu para entrar na alma do poeta, este esquecido de hoje, pouco lido e nem lembrado no seu dia 20 de outubro! Mesmo com um pouco de atraso, salve, salve todos poetas! Alô cumpadi Walter, Papalo Monteiro, Dorinho, Mano Di Souza, Edilsom Barros lá do Ceará, Dean lá da Paraíba, Carlos Moreno, Baduxa, Alisson Menezes, Evandro Correia e tantos outros!

Alguém pode até dizer que Castro Alves é o nosso poeta maior, nosso craque das Espumas Flutuantes e do Navio Negreiro, mas isso não importa tanto quando ainda temos um time imbatível, como Carlos Drumond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Cassimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Álvaro de Azevêdo, Raul Seixas, Raquel de Queiroz, Cora Coralina, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo e uma penca de imortais.

Pena que nos tempos atuais com um governo negacionista inimigo da cultura, nossos jovens estejam cada vez mais alienados e recebendo uma instrução que criminaliza o conhecimento e o saber. Lamentável, mas para muitos esses nomes não passam de jogadores de futebol, ou outra coisa qualquer, menos poeta.

Infelizmente, não é somente a poesia que está esquecida e depreciada. O dia do escritor também passa batido. A nossa mídia anda tão sem conteúdo, e mais preocupada com seu interesse comercial que nem comemora e celebra o Dia do Jornalista, 7 de abril, quanto mais cobrir uma pauta do Dia do Poeta ou do Escritor!

“SAINDO DO ARMÁRIO”

Uma exposição da nossa companheira colega jornalista-fotógrafa, Edna Nolasco, realizada na Casa do Idoso, retratou o mundo LGBT como muita propriedade e beleza de imagens extraídas das suas lentes, por sinal a sua maior especialidade quando no manejo da máquina fotográfica, na escolha certa da luz e da sua expressividade. Um trabalho muito bonito e sensível feito em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista. Fotografia é como poesia, e Edna sabe muito bem fazer isso. Pelo seu tempo de atuação na área e experiência, ela já é, sem dúvida, uma fotógrafa baiana consagrada pela sua sensibilidade no olhar e registrar os fatos e acontecimentos. Em “Saindo do Armário” é mais uma de suas exposições que nos encanta por saber entrar na alma da natureza humana, no caso específico do tema em questão, mas sua lente se move também em outros assuntos do fotojornalismo. Edna aprendeu a clicar certo no momento certo, e isso, por si só, é uma arte de uma grande artesã da fotografia de Conquista e da Bahia.

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (II)

Continuação dos nossos versos sobre personagens nordestinos num formato de peça teatral e estilo cordelista. Autoria de Jeremias Macário

De lá parti para a primeira nação de silvestres Piauí,

E no calor de Teresina, um rolé pelo Mercado Popular,

E na Capivara decifrar as rochas rupestres inscrições,

Dos povos que deixaram em seus traçados as lições,

Delas fui parlar com o estudioso sábio Assis Brasil,

Poeta e escritor de mão cheia do “Gavião Vaqueiro”,

Que me jurou ter saído das curvas do “Delta do Parnaíba”,

Sua terra que lhe escrevinhou “A Aventura no Mar”,

E ainda narrou como se deu a saga do “Cavalo Cobridor”;

Citou Graciliano, seu Rosa, Clarice Lispector, sim senhor!

 

Cruzei travessias de cruzes e fui lá pro meu Ceará,

Torrão Tapuia da tribo “Guarani” de José de Alencar,

Que me mostrou seu tinteiro e a sua pena de pincel,

Que de “Iracema “ fizeram a índia dos lábios de mel,

E depois segui a rota do “Falcão” pela noite Fortaleza;

Me amarrei de primeira com uma cubana havanesa,

E de ressaca da farra fui pra praça da Catedral da Sé,

De onde parti para ouvir o canto de Patativa do Assaré,

Que fez rasgar a sanfona 12 baixos de Luiz Gonzaga,

No som profundo cordelista da sua “Triste Partida”,

Como na voz da cotovia, se perde de vista na correria

O nordestino magro faminto que foi levantar a paulista.

 

Nas asas da Patativa de lá voei alto ao som de Ravel,

Pelas corredeiras e cachoeiras vi paisagens de rapel;

Renovei minha alma aflita pra riscar versos sertanejos,

Com Humberto Teixeira lá na cidade velha de Iguatu,

E saber como ele parceirou e criou o “Rei do Forró”,

Que se eternizou no mundo no voo da “Assa Branca”,

Puxando baião e xaxado teclado no dó, ré, mi, fá, lá sol,

Nas feiras caipiras, onde conquistou gregos e troianos,

Estrangeiros viajantes do túnel e até nômades ciganos.

 

Pelas pegadas do santo guerreiro de nome “Conselheiro”,

Ouvi sua pregação espiritual de criar sua comunidade,

De almas seguidoras sagradas nas profundezas da Bahia,

Onde profetizou em Sobradinho que o sertão ia virar mar,

E armou sua comuna aldeia Canudos onde fincou sua cruz,

Que o exército tirano do Brasil massacrou mais de 100 mil,

Num banho de sangue de cabeças cortadas e nas balas de fuzil,

Mas o monte de fiéis até o último homem com bravura resistiu,

A mais uma barbárie da história contraditória que nos traduz.

 

O SAL E A DESERTIFICAÇÃO DO NORDESTE

Fotos do jornalista Jeremias Macário

O sertanejo ainda esperançoso e crente em não desistir da luta, porque, antes de tudo, é um forte, como dizia Euclides da Cunha, mete a mão na terra e removendo-a entre os dedos, com a voz embargada, diz, meu filho, essa aqui já está morta pelo sal. Não serve mais para plantar. Ao seu redor ainda tem algum pedaço que com a chuva ainda produz alguma coisa acanhada de milho, feijão, abóbora e o andu.

A seca secular, ou mesmo milenar, de muitas histórias de fome, de meninos mirrados de pés no chão, dos natimortos e dos retirantes para o sul, narrada e decantada pela imprensa, trovadores, repentistas e cancioneiros ainda persiste nas promessas dos governantes políticos desde o Brasil Colonial e Imperial. Sempre se pregou que é possível conviver com ela, mas tudo se esbarra nos projetos e políticas públicas de melhoria da vida desse homem, os quais nunca se concretizaram.

Autores em seus romances, poetas e cantadores, como Raquel de Queiroz, em “O 13”, Graciliano Ramos, em “Vidas Secas”, Ariano Suassuna com seu “Auto da Compadecida”, João Cabral de Mello Neto, em “Vida Severina”, Zé Ramalho, Geraldo Vandré, Elomar, Xangai, Glauber Rocha com seu cinema de cangaço e tantos outros retrataram essa árida sisuda do inclemente rei Sol que impede as sementes de germinarem ou queima o pasto e a lavoura.

O nordestino acredita em mudar seu destino, mas só recebe esmolas e alguns carros-pipas para matar a sua sede e a dos seus animais. Continua trabalhando na terra cansada que está virando deserto e sal. Para piorar, as carvoarias dos gananciosos escravizam seu povo e deixam um rastro de destruição na caatinga.  Ao invés de água e ajuda para o plantio de sua subsistência, recebe sal e amargura. Uns ficam, mas muitos já foram embora para outras paragens.

Ao longo dos tempos, de mais de 500 anos, as secas cruentas, cada uma pior que outra, estão registradas em livros, manchetes de jornais e reportagens de TV. Além das estiagens de rachar a terra, os nordestinos ainda foram vítimas dos coronéis que tomaram e invadiram suas propriedades com seus jagunços de fuzis nas mãos. As volantes e o cangaço praticaram suas violências, roubando e estuprando suas famílias.

Na maior parte do tempo, a paisagem é cinzenta entre os engaços e bagaços de espinhos das juremas. Quando batem as águas, o colorido faz renovar as almas, mas é por pouco tempo. Logo entra outra temporada de aridez anunciando a desertificação do Nordeste. A caça que ainda enganava o estômago por uns tempos, não existe mais. Nem se ouve mais o canto da juriti, da nambu no final da tarde e nem o piar da perdiz. Só o sereno fino faz o orvalho da manhã. É um aviso de que mais cedo ou mais tarde o sertanejo, com lágrimas nos olhos, tem que bater em retirada do seu torrão.

As narrações são as mesmas quase todos os anos, como agora na Bahia onde mais de 100 municípios (mais de um milhão de pessoas) vivem em estado de emergência, mesmo os que se situam próximos do Rio São Francisco, o “Velho Chico”, outro castigado pela destruição humana, que pode desaparecer ou virar sal (sua foz já é salgada). Nas estradas poeirentas ainda corta algum carro-pipa – a indústria da seca e do voto – que coloca um pouco d´água em uma ou outra cisterna vazia, mas só poucos são contemplados.

A transposição do São Francisco foi mais uma ilusão perdida no horizonte da política enganosa. A corrupção corroeu boa parte das obras em rachaduras e ferrugens. Os canais correm solitários na sequidão, e a poucos quilômetros dali, como em Remanso, só se vê lata d´água na cabeça, ou crianças e mulheres tocando jumentos com carotes e em carroças para tentar pegar o precioso líquido em algum lugar distante.

 Como uma piada cínica de mau gosto, o Governo da Bahia anuncia mais um projeto de transposição do “Velho Chico” até a Bacia do Rio Paraguaçu, outro em estado terminal, passando por São José do Jacuípe e outros municípios. É mais um daqueles programas para inglês ver. Há muitos anos já ouvi falar nessa água do Salitre (Juazeiro) até São José do Jacuípe. Agora resolveram dar mais uma riscada no mapa de papel amarrotado e sujo de mentiras.

Os homens da tecnologia e da política prometem que a obra estará concluída em dez anos. Talvez meu neto de um ano nem chegue a ver esse canal chegar até a Barragem Pedra do Cavalo. Aqui em Vitória da Conquista, há mais de 15 anos estão para construir uma barragem para abastecer em definitivo a cidade. Ainda tem gente que acredita nessa lorota eleitoral.

Por falar no Paraguaçu, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) vai reduzir em 50% os volumes outorgados em toda sua bacia, mantendo apenas as licenças para o consumo humano. A Barragem Pedra do Cavalo está com 28% da sua capacidade de armazenamento contra mais de 50% em outubro do ano passado.

O Rio Utinga, um dos afluentes do Paraguaçu (nasce em Barra da Estiva e corta 86 municípios), está mais seco outra vez e num cenário bem pior que nos outros anos. “A situação está difícil para nós. Na roça perdemos tudo e os bichos estão berrando de sede” – lamenta um morador do povoado São José, na zona rural de Lençóis. O vaqueiro é outro personagem nordestino em plena extinção. Não existe mais gado para tocar. Nem as cabras estão resistindo, e as pessoas estão brigando pela distribuição da água da Barragem Zabumbão, como em Paramirim e outros municípios vizinhos.

Enquanto isso, misturada a pedregulhos, a terra nua está cada vez mais salinizada. Ainda existem alguns oásis que florescem, mas não mais com aquela cor viçosa e fértil de outrora. É o prenúncio da desertificação do nosso Nordeste que pode se tornar num Saara brasileiro para o trânsito de camelos transportando turistas de outras terras.

 

A FOME E OS OSSOS

Retratos dantescos de pessoas no Rio de Janeiro disputando os melhores ossos, cartilagens e pelancas de bovinos num depósito insalubre e num caminhão estacionado correram o mundo. Esse é o nosso país do slogan de Pátria Amada, ou Pátria Esfomeada?

O bispo do santuário de Nossa Senhora Aparecida a chamou de Pátria Armada. Ele me fez lembrar as falas de D. Helder Câmara quando sempre clamou por justiça social, dizendo que isso não é comunismo. Como sentir orgulho de ser brasileiro quando milhões passam fome e catam restos de comida no lixo? Tudo nos faz voltar aos tempos do romance “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.

Não se trata de ser de esquerda ou de direita. No século XVI a falta de trabalho penalizou toda Europa Ocidental. Houve uma invasão dos indigentes, e os reis decretavam leis proibindo a mendicância e a vagabundagem. Os mendigos eram marcados com ferro em brasa. Qual dos dois era o pior? A fome roendo no estômago, ou o ferro? Nem precisa responder.

Em nosso Brasil de hoje, conforme pesquisas do IBGE, mais de 20 milhões de brasileiros passam 24 horas sem ter o que comer por alguns dias. Dependem de uma cesta básica das campanhas de doações. Nem todos conseguem mais ajudar porque as famílias estão endividas com a alta da inflação.

Ainda de acordo com as pesquisas, 24 milhões de pessoas não têm certeza de como vão se alimentar no dia a dia, e já reduziram a quantidade de alimentos ingeridos. Nesse cenário macabro, não se dá mais para se falar em qualidade por causa da substituição de um produto por outro mais barato.

Pelas contas do IBGE, 74 milhões também estão mergulhados na incerteza se vão ingressar na penúria. Ronda aquele clima de ansiedade e até depressão quando se houve os noticiários na mídia quanto a escalda nos preços dos alimentos, e a possibilidade de amanhã fazer parte do contingente dos mais de 14 milhões de desempregados.

Com a vacinação acelerando e o número de mortes e casos reduzindo, talvez agora o maior medo seja a fome, principalmente dos milhões que recebem um ou dois salários mínimos e têm família para sustentar. Estamos no país do medo, vivendo num presente de pobreza sem futuro.

Pode até ser desanimador e exagero demasiado, mas quem hoje ainda come um pedaço de carne misturada com feijão e arroz pode amanhã estar catando osso e pelancas num carro fedorento, ou num túnel de lixo, servindo de imagem para registrar a degradação humana.

O desespero pode levar o povo faminto a invasões em estabelecimentos, a chamada convulsão social, se bem que o brasileiro não chega a se rebelar a esse ponto. As leis dos reis vão proibir a mendicância e ferrar com brasa os mendigos?





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