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“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, o companheiro Edilsom Barros fez uma parceria musical, aproveitando a letra “A Dor da Finitude”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de tratar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas do autor do livro estão sendo trabalhados para, em breve, também entrarem no rol das letras musicadas.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

O CESOL TAMBÉM FAZ CULTURA

Não vivemos só de economia, empreendedorismo e finanças. Cultura também é essencial para a mente e a alma humana. Pensando nisso, o Cesol de Vitória da Conquista (Centro Público de Economia Solidária da Bahia) diversificou suas atividades e realizou, ontem, (dia 14/11-quinta-feira), um sarau cultural que reuniu um grupo de artistas, escritores e estudantes em sua sede, na rua Santos Dumont, no bairro São Vicente, culminando com o lançamento do livro “Anésia Cuaçú, de autoria do professor jequieense Domingos Ailton.

Foi um final de tarde prazeroso e descontraído, com o acompanhamento musical do violeiro, cantor e compositor Walter Lajes que interpretou várias canções que falam do nosso povo do agreste sertanejo, como “Retrato Falado do Sertão” (melhor interprete num festival de São Paulo) e “Na Espera da Graça”, uma composição em parceria com o jornalista Jeremias Macário, que também discorreu sobre suas obras como escritor e declamou o poema “Senhora Parteira”, de sua autoria.

Na eliminação dos atravessadores

Entre os produtos artesanais expostos na loja do Cesol, o pessoal foi se achegando para ouvir também as palavras do coordenador geral do órgão em Conquista (abrange 25 cidades da região), Andrersom Ribeiro, do coordenador de Articulação Política, André Lúcio Alves, que abriu os trabalhos, e do autor do livro Domingos Ailton. Estiveram presentes também o presidente do Instituto Casa da Cidadania, Moisés Andrade, Tiago Santos Ribeiro, técnico do Cesol Região Sudoeste e demais convidados.

Andresom falou da importância do Cesol como agente da economia solidária, o qual atua na área da comercialização direta dos produtos feitos por associações de artesões, eliminando a ação dos atravessadores que adquirem os objetos por preços bem baixos para revender no mercado por um valor bem maior. André Lúcio acrescentou que o Cesol também é cultura e pretende ajudar os artistas locais através de encontros dessa natureza, como o realizado com sucesso na última quinta-feira (dia 14/11).

“Anésia Cuaçú”

O escritor Aílton fez uma explanação detalhada sobre seu livro “Anésia Cuaçú, que foi uma das obras indicadas para o vestibular 2020 da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb. Disse que se sentia muito prestigiado por ser um escritor regional incluído na lista de outros escritores considerados os cânones da literatura brasileira.

O livro trata de uma mulher da região de Jequié (Maracás) chamada Anésia Cuaçú, que entrou para o cangaço no começo do século passado e se tornou a líder de um bando. De acordo com o autor, Anésia foi a primeira mulher no Nordeste e no Brasil a liderar um grupo de cangaceiros, bem antes da turma de Lampião e Maria Bonita.

Foi também uma mulher valente e avançada para o seu tempo, por volta de 1915/16, sendo a primeira a vestir calças e a montar no cavalo como homem. (as mulheres montavam de lado). Era exímia na pontaria com sua arma, considerada uma figura mística e temida por todos na região. Na ausência da justiça, ela e seus seguidores procuravam fazer a justiça com as próprias mãos.

Para combater estes cangaceiros, o Governo do Estado da época (1916) mandou para Jequié três expedições de soldados que foram derrotados, mas aproveitaram a ocasião para fazer atrocidades e aterrorizar a população. Nesse aspecto, Ailton fez um paralelo com a Guerra de Canudos que terminou no final do século XIX, quando o povo de Antônio Conselheiro foi massacrado.

Jornal A Tarde e a Felisquié

Ainda em sua descrição sobre a obra, Domingos citou a importância do jornal A Tarde que mandou para Jequié um repórter e um fotografo para registrar historicamente os acontecimentos em sua viva realidade, inclusive com uma entrevista com a líder Anésia. Com a perseguição dos soldados, o grupo da família Cuaçú se dispersou para outros estados, inclusive norte de Minas Gerais.

Agora, na IV Edição da Felisquié (Feira do Livro), de 28 de novembro a 1º de dezembro, o escritor Ailton vai trazer membros dos Cuaçus para serem homenageados e contar a história de seus antepassados. O evento vai ter também as presenças da atriz Ana Cecília, da cineasta Carolina Assis e da escritora Cristina Serra, entre outros escritores, intelectuais e artistas.

Depois do evento cultural, realizado na sede do Cesol, cinco livros de “Anésia Cuaçu” foram sorteados para estudantes que participaram das atividades culturais e vão fazer o vestibular da Uesb. Os dirigentes do Cesol de Conquista, que reúne associações e artesãos de 25 cidades, prometeram realizar outros encontros culturais de saraus com artistas para exporem seus trabalhos no órgão de economia solidária.

PEDALANDO EM FAMÍLIA

Esta foto é do grande fotógrafo José Silva, companheiro de muitas lidas na Sucursal do Jornal A Tarde, em Vitória da Conquista. Andamos muito por este sertão da Bahia e registramos muitos flagrantes.  Este, como outros,  na Avenida Juracy Magalhães me chamou a atenção, e é uma foto que deveria ser premiada nacionalmente. Bem, falei um pouco do autor, mas, e a foto? Como o próprio título já diz tudo, será que eles estão indo para algum aniversário? Para a igreja rezar? Fazer alguma visita aos parentes? Para a feira é que não vão. A foto é linda, mas a mãe está colocando os filhos e, ela mesma, em risco. Na verdade, todos são equilibristas da bicicleta e mereciam ser fotografados, mas só José Silva conseguiu esta façanha.

SERPENTES QUE NUNCA MORREM

Poema de autoria de Jeremias Macário

Palavras perseguem, desencantam, encantam;

grudam no canto do cérebro e martelam na melodia;

cantam em prosa e verso  no compasso da filosofia.

 

Aparecem frescas na madrugada de borrões fortes;

roubam o espaço do amor com pincéis de  sangue;

brotam como raízes exuberantes soltas em mangue,

no barco veloz das folhas, cortando como os serrotes.

 

Surgem como condes nobres, ou tabaréus lá do norte;

uma cambaleia em fome,  balbucia como tísico pobre;

outra se reparte em fatias e monta o enredo do caixote.

 

São serpentes de dentes afiados, ou como mastodôntico;

podem ser centopéias, ou até mesmo um deus platônico,

que sempre querem indicar as veredas da nossa andança;

ferram nossa pele e nos trançam com a dor da lembrança.

 

Pedem mil perdões e aparecem na forma de um isotônico,

nos açoitam e nos transportam para um mundo catatônico;

por vezes nos faz bailar no salão de espelhos da real dança.

 

Chicoteiam nosso espírito, ora tranquilas, ora raivosas;

cheiram como as rosas, pela terra germinam e dormem;

duras como as rochas nas histórias de versos e de prosas;

as palavras são serpentes devastadoras que nunca morrem.

 

Em poemas de vários temas, nos filmes e nos teoremas,

viram feiticeiras e lendas como as pirâmides faraônicas;

são as  românticas e as semânticas das línguas românicas.

 

Trovas tiradas tiranas da viola do repente do cantador;

no coco, nas emboladas como as trovoadas de sertão;

no cordel  como fel, falando do Satanás e do Senhor;

as palavras revivem o cangaço do nordestino Lampião.

 

Nos folclores dos agrestes e nos causos dos coronéis,

que compram suas patentes e molestam suas meninas,

as palavras cospem brasas nos gatilhos das carabinas,

 

São como serpentes traiçoeiras das florestas escuras;

escondidas como sacis e disfarçadas de índio curupira;

são os escombros das guerras e as canções de ternuras;

são os eruditos, clássicos escritos e do humilde caipira.

 

Percorrem os séculos, impregnadas no ditado popular,

vagando de geração em geração em nossos pensamentos;

no politicamente correto caem bem no vernáculo vulgar.

 

 

EX-VEREADOR PEDE GUARDA MIRIM

Da Tribuna Livre da Câmara Municipal de Vereadores, na sessão do dia 13/11(quarta-feira), o ex-vereador Absolom pediu ao poder público a criação da guarda mirim, um projeto que ele insistiu em constituir quando assumia uma cadeira no legislativo conquistense na década de 1990. Ele também falou da importância da instalação do gabinete de gestão integrada na área da segurança pública, como já existem em outras cidades.

Em sua fala, Absolom criticou o uso de armas pelos militares nos colégios e quando estão fazendo rondas nas escolas. Considerou essa prática como absurda e de desrespeito aos jovens estudantes. Ele destacou a necessidade  de se ter em Conquista, uma cidade na lista entre as mais violentas no Brasil, um conselho democrático de segurança pública, em constante diálogo com a comunidade, visando a redução da criminalidade no município.

Igualdade no atendimento

Um representante do povoado da Estiva pediu apoio aos parlamentares junto à prefeitura, para o recapeamento das estradas na zona rural. Como primeiro a se pronunciar na sessão, o vereador Álvaro Phiton fez um apelo ao secretário de Esportes e Cultura para que seja agilizada a reforma do campo do Alto do Panorama e das quadras de esportes nos bairros vizinhos. Na ocasião, se dirigiu aos colegas para que votem o pedido de empréstimo de 60 milhões de reais que o prefeito está fazendo à Caixa Econômica para a realização de serviços nos bairros periféricos da cidade.

O vereador Rodrigo Moreira criticou a prioridade que o poder público atual concede aos servidores no atendimento dos serviços públicos, especialmente no segmento da saúde. Ressaltou que deve haver equidade no atendimento, e que todos sejam iguais. “Não existe razão para que um funcionário público tenha preferência no atendimento”. Na oportunidade, mandou um recado ao prefeito para que sejam construídos no município um hospital da criança e outro da mulher, como já existem em algumas cidades da Bahia.

O projeto de substituição das mangueiras pretas por transparentes nos postos de combustíveis, para que o consumidor veja a qualidade da gasolina, principalmente, foi objeto de comentário do parlamentar Sidney Oliveira, autor da proposta. Já Coriolano Moraes, do PT, voltou a criticar a falta de regulamentação do transporte alternativo das vans na cidade, dizendo que a clandestinidade nesse tipo de serviço só tem aumentado, prejudicando as empresas de ônibus.

Coriolano pediu a criação da guarda municipal, objeto de promessa de campanha do prefeito Hérzem Gusmão, e que até agora não foi cumprido. Falou também da falência da Viação Vitória que, passado quase um ano do seu fechamento, ainda não indenizou os funcionários, arrematando que o sistema de transporte coletivo do Conquista caminha para a falência.

POR UMA POLÍTICA CULTURAL PARA VITÓRIA DA CONQUISTA

Entra governo e sai governo (não importa aqui se de esquerda ou de direita) e nada de se criar uma política cultural para o município de Vitória da Conquista, apenas um faz de conta de uma Secretaria esvaziada sem orçamento que apenas realiza um São João e um Natal, e isto com um arranjo de recursos de outras pastas, ou uma verba extra da prefeitura. Os criadores, intelectuais e artistas ficam a ver navios, dependendo de iniciativas próprias, com muita luta e sacrifício.

É uma vergonha para a terceira maior cidade da Bahia, com cerca de 350 mil habitantes, e que completou, no último dia 9 de novembro, 179 anos de emancipação política (questionável a data). Uma vergonha para Conquista com tantos nomes de reconhecimento nacional e internacional em várias linguagens artísticas, e que ainda acumula em seu seio tantos talentos adormecidos sem apoio na literatura, na música, nas artes plástica, no teatro, no cinema e na dança.

Fotos de José Silva

FALTA DE UM EQUIPAMENTO

Aqui, para alguém fazer uma obra intelectual tem que sair mendigando. Se o poder público pouco tem dado importância à nossa cultura, imagina agora o setor privado, cujos empresários só pensam no lucro imediato em seus negócios e acham que investir em cultura é jogar dinheiro fora. Se uma pessoa apresenta um projeto ou oferece um produto, logo aparece alguém com a revoltante resposta de que vai dar alguma coisa, só para ajudar, como se ele também não estivesse se beneficiando. É também vergonhoso e desanimador ouvir isso.

Outro problema em Conquista é a falta de um equipamento à altura, como um Centro Multicultural, para realização de grandes eventos. Por muito tempo, desde o governo do PT, falou-se numa parceria com o Banco do Nordeste para criação de um projeto neste sentido, só que a própria política se encarregou de deixar o projeto apenas no papel. Depois disso voltou-se a comentar sobre a volta do banco nesta empreitada, mas, infelizmente, nunca mais falou-se nisso.

PLANO MUNICIPAL

Pela primeira vez, a Fundação Gregório de Mattos, através do seu presidente, Fernando Guerreiro, apresentou a uma comissão de vereadores, o Plano Municipal de Cultura para Salvador. Lembrei com inveja de Vitória da Conquista. Não temos aqui uma Fundação do tipo, mas bem que a próprio Câmara, ou outra entidade, poderia fazer o mesmo e tornar verdadeiro quem sempre acha e diz lá fora que Conquista é uma cidade cultural. Já foi na boa época da efervescência cultural dos anos 50 e 60. Aliás, o nosso legislativo poderia realizar uma sessão especial para discutir a situação precária em que vive a nossa cultura na cidade, carente de ajuda. Seria o primeiro passo para a estruturação de uma política de verdade.

Com duas universidades e mais de uma dezena de faculdades, a capital do sudoeste bem que já poderia ter uma política cultural e atrair para aqui festivais de músicas (concursos), feiras de livros, bienais de artes plásticas e outras atividades da área, colocando esses milhares de jovens e adultos para pensar, produzir obras e externar suas ideias. Tenho certeza que muitos nomes e muitos trabalhos inéditos vão surgir e ganhar o território nacional.

Dentro desse plano poderia ser viabilizada a instalação do Museu da Imprensa, numa das dependências cedidas pela própria prefeitura. Ao longo dos últimos anos, muita coisa foi perdida sobre a história da nossa mídia, mas creio que, com esforço e dedicação, muito material pode ser resgatado de colecionadores e do próprio Arquivo Municipal que ainda dispõe de muitos jornais antigo e papéis que fariam parte deste museu.

Guerreiro, da Fundação Gregório de Mattos, levou para os parlamentares da Câmara 10 diretrizes, 13 objetivos e 29 metas para serem realizadas. Quando aprovado, o documento torna-se lei, não importando quem assuma o comando da cidade. O nosso projeto pode ser construído a partir de um diagnóstico da cena cultural de Vitória da Conquista, observando suas realidades e potencialidades específicas do lugar.

OUVIR A CLASSE ARTÍSTICA

O vereador, ou comissão que for apresentar o plano, pode, antes da sua elaboração, dialogar com a classe artística para obter sugestões e ver as necessidades de cada setor. Na Câmara, o documento pode ser aperfeiçoado e até dividir a cidade em territórios de abrangência, porque a intenção é também fortalecer a cultura dita popular.

O estudo pode mostrar as vocações de Conquista, como os reisados, as expressões mais comuns na zona rural, assentamentos da reforma agrária, distritos e até as manifestações de matrizes africanas do candomblé. A partir daí poderia ser estabelecido o número de projetos a serem executados durante o ano. O plano deve contemplar a participação social e popular, além da cultura acadêmica.

Além da ampliação dos recursos públicos na cultura, o projeto deve mostrar também os caminhos para realização de parcerias com o setor privado, com os empresários da cidade e as entidades de classe, sempre elevando a capacidade de captação através do chamado custo benefício. No caso do poder público, a dotação orçamentária ficaria à mercê de cada gestor.

A Secretaria de Cultura seria obrigada, por lei, a ter um orçamento próprio para trabalhar através de seus editais, ou outras formas de promover a cultura do município durante todo ano. O que não se pode é ficar neste marasmo onde só temos, na verdade, uma cultura de calendário de São João e Natal.

 

 

 

O NATAL NUM PAÍS DESIGUAL

Carlos Albán González – jornalista

A desigualdade social no Brasil, uma das maiores do mundo, revela sua fisionomia em todos os dias do ano, mas é no período natalino que o abismo entre ricos e pobres se mostra tão profundo. Contraria o ensinamento do homenageado na noite de Natal, cristianizado há 2.000 anos, na parábola do mendigo Lázaro, segundo a qual, os privilegiados com bens materiais têm a obrigação de ajudar os mais necessitados.

“A opção por um liberalismo exacerbado e perverso, que desidrata o Estado quase ao ponto de eliminá-lo, ignorando as políticas sociais de vital importância para a maioria da população, favorece o aumento das desigualdades e a concentração de renda em níveis intoleráveis”, afirma a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em nota divulgada recentemente.

Em dois cenários distintos resumimos o quê podemos definir como desigualdade social:

Na alegre noite de Natal, os privilegiados, embriagados pelo uísque e champanhe importados, celebram, unicamente, as vitórias conquistadas no dia-a-dia daquele ano que está findando. Nem por um instante, o pensamento de um dos presentes se volta para Jesus Cristo, o aniversariante do dia.

No outro extremo das grandes cidades, nas favelas e palafitas, onde há sempre espaço para um singelo presépio, 13 milhões de desempregados, vivendo abaixo da linha da pobreza, desprovidos dos benefícios básicos ao ser humano, como saúde, saneamento, educação escolar, trabalho e lazer, cansaram de esperar pelo Papai Noel dos governantes.

No irrefutável artigo, que teria espaço nas páginas de “Opinião” da grande mídia, publicado neste blog, sob o título “No tempo da roda consumista e as tristes desigualdades sociais”, o colega e amigo Jeremias Macário expõe o desencanto das crianças pobres deste país neste “período festivo”, como assim se refere o comércio

Com a finalidade de aumentar suas vendas, o comércio promove sorteios, distribui brinquedinhos, e até apela para o ineditismo (ou seria hipocrisia), como fez um shopping de Salvador, contratando um Papai Noel afrodescendente, para ser abraçado, tirar fotos e ouvir os pedidos das crianças bem alimentadas.

Nas áreas das nossas metrópoles “administradas” pelo tráfico de drogas,  crianças, abandonadas pelo poder público exibem armas de fogo em vez de brinquedos inocentes.“Botei meu sapatinho/na janela do quintal/Papai Noel deixou/meu presente de Natal/seja rico ou seja pobre/ o Velhinho sempre vem”. Os versos da canção “Velhinho”, de autoria do poeta Octávio Babo Filho (1915-2003), são apenas uma lembrança para os mais velhos.

Quais as previsões, nos campos político e ideológico, que podem ser feitas para o brasileiro até o Natal? Contaminado pelos movimentos populares no Chile e na Bolívia, e com a oposição desperta pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem apontado sua metralhadora para todos os lados, principalmente para o Palácio do Planalto, subiu o sentimento de ódio entre lulistas e bolsonaristas. Oficial da Arma de Artilharia, Jair Bolsonaro já dispôs os seus canhões na linha de tiro.

Antes de começar a gozar os 60 dias de férias e de planejar as festas de fim de ano em Nova Iorque ou Paris, os ministros do STF concederam uma espécie de indulto de Natal para 1.500 condenados em segunda instância. Essa decisão veio aprofundar ainda mais a discórdia no seio das famílias, no ambiente de trabalho e nas escolas. Lula, José Dirceu e os que tiverem polpudas contas bancárias para contratar, a peso de ouro, os mais famosos escritórios de advocacia penal, gozarão de liberdade até o fim de suas vidas. O mesmo tratamento não terá o sentenciado que furtou um pacote de leite para atenuar a fome de sua família.

Eu não queria encerrar este texto sem fazer alusão a um fato, ocorrido nesta cidade, que passou despercebido, por falta de uma maior divulgação. Como estamos sendo governados por religiosos fundamentalistas, não me causou estranheza um pastor ser absolvido, há poucos dias, por um júri popular. O réu assassinou, a sangue frio, uma pastora, sob o argumento de que ela estava “roubando suas ovelhas”. Uma testemunha do crime também foi morta. O corpo de jurados deve ter sido formado por maioria evangélica.

 

 

EXPOSIÇÃO “AUTO DA CAMELA” APRESENTA A VIDA SERTANEJA

Dois gigantes das artes de Vitória da Conquista e de renome nacional, o escultor e instalador Edmilson Santana e o artista plástico Silvio Jessé se uniram para montar a exposição baseada no “Auto da Camela”, uma obra de Carlos Jheovah e Ezequias, que pode ser vista e apreciada na entrada do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.

Com seus quadros que retratam de uma forma simples e verdadeira a vida do homem e da mulher sertaneja, o árido da caatinga, a fauna e a flora desse bioma, como o mandacaru e a barriguda, os costumes e hábitos, Sílvio Jessé deu um mergulho intenso na obra dos autores de o “Auto da Camela” que já foi também descrita em peças teatrais e declamada com sucessos em vários eventos culturais.

Soube captar a mensagem

A montagem da exposição ficou por conta do instalador artístico Edmilson Santana que também soube captar a mensagem do tema e deu ainda mais brilho e vida na mostra, com textos do trabalho literário de Jheovah e Ezequias. Foi um “casamento” que deu certo porque tanto Santana como Jessé têm suas raízes fincadas no sertão e entendem, como ninguém, o agreste nordestino e sua vida cotidiana.

Com seu estilo próprio de pintar desde menino na zona rural de Conquista, vendo a lida do homem do campo, o trabalho de Sílvio tem um vivo realístico, e quem para, para observar, termina por entrar dentro do quadro e vira um personagem dos seus pinceis e tintas da cor da terra, das ferramentas, dos animais e das roupas usadas pelos sertanejos.

A opção pelo tema foi outro “casamento” perfeito entre a linguagem literária e as artes plásticas, e os dois artistas souberam mostrar isso na exposição, cada um exercendo a sua função. A visitação é imperdível, principalmente para quem não conhece muito bem como é a vida no sertão. É uma leitura fácil de ser interpretada, mesmo quem não entende do gênero artístico.

 

NO TEMPO DA RODA CONSUMISTA E AS TRISTES DESIGUALDADES SOCIAIS

A roda girou outra vez tão rápida no gigante Brasil das profundas desigualdades sociais, que só fazem aumentar, com mais gente pobre e na extrema linha da pobreza, e chega o impetuoso tempo consumista das compras supérfluas e dos banquetes comedeiras de final de ano! É o Natal com suas cores alegres e tristes, das lojas enfeitadas de presépios e papais noéis que não são nossos, dos garotos arrumados fazendo seus caros pedidos e de outros maltrapilhos de pés no chão que descem de seus casebres e ganham o asfalto para angariar uns trocados na desigual realidade da vida.

Será por isso que muitos entram em depressão e dizem que a festa natalina é triste, e outros nem curtem a data? Acho que não seja tanto por este motivo. Por que, então, ela bole com os sentimentos pessoais e é o período das campanhas de doações, de se pedir desculpas e perdão; ter compaixão e de ser mais gentil com os outros? Não é uma hipocrisia, remorso, ou uma forma de se redimir de seus erros e pecados contra seus semelhantes? Não poderíamos ter o lado bom durante todo o ano e sermos mais humanistas?

Certa tristeza na alma

Nesta época do ano, gostaria de fazer um texto falando de coisas boas e agradáveis, mas a situação em que se encontra o nosso país, com os desastres ecológicos, mais de 13 milhões de desempregados e um governo de extrema direita que pouco respeita os direitos humanos e a liberdade de expressão, só me permite que eu sinta, como tantos, certa tristeza na alma nesta data de trenós carregando presentes no gelo, ou melhor seria de velhas carroças neste sol tropical.

As notícias são más, como o julgamento do Supremo Tribunal Federal que vota contra a prisão dos corruptos de “colarinho branco” quando condenados em segunda instância e leva os processos para recursos “ad infinitum” até a prescrição, e ainda vem de lá o IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, justamente neste templo consumista do Natal, nos dizer que nos últimos quatro anos as desigualdades sociais no Brasil só fizeram crescer.

Nos informa que a Bahia, em termos absolutos, é o pior estado da Federação neste item, com mais de sete milhões de habitantes, dos mais de 14 milhões, “vivendo”, ou vegetando com menos da metade de um salário mínimo, o qual não alcança os mil reais mensais. A mídia faz sua média e ganha com a fome e a fartura do comprar.

Num país tão injusto, de enorme concentração de renda, que só faz aumentar através do seu capitalismo selvagem e devorador, onde poucos têm em abundância e muitos não têm quase nada, como falar de um Natal feliz cheio de realizações e sonhos conquistados? Como falar de amor, de poesia doce e de felicidade onde prospera a fome, a falta de educação, de saúde, de habitação digna e de igualdade social para todos?

Vamos ser bons só agora e fazer de conta que tudo vai bem daqui pra frente, dando uma cesta básica, uns brinquedos para umas criancinhas sujas e meladas, uma camisa, um vestido, um sapato ou um cobertor, para apaziguar nossa consciência de tanta indiferença no tempo da competição e da ganância? Poderíamos ter sempre durante todo ano o mesmo olhar e a mesma mão estendida que se abre mais emotiva no Natal do empanturrar e beber.

Em suas castas de panças cheias

Só um tempo de doações e solidariedades não basta para reduzir as mortais desigualdades sociais. No outro dia a barriga volta a roncar, se os homens malvados e capitalistas burgueses lá de cima só pensam em encher suas panças, encastelados em suas castas. Noites de festejos piscinais, banhados aos vinhos, uísques e aos champanhes, enquanto lá fora uma massa ignara lambe os restos das migalhas numa noite quente de suor e lágrimas.

Feliz Natal e uma boa entrada de ano novo, meu amigo camarada! Já comprou o seu presente de papel? É sempre assim todos os anos até que a morte nos separe. E assim segue a roda do consumismo estonteante do jogar mais lixo e sujeiras no planeta; do comprar e comprar, para o mais produzir e produzir sem parar.

O maior presente seria o desconstruir para construir um amanhã mais limpo, mas ninguém quer saber disso. Coisa de idealista utópico, ou poeta sonhador da distopia. Um dia pode não haver mais Natal e fim de ano para comemorar. Só o tempo e o vento num deserto de poeiras, sem gente, sem vida, sem flora e sem fauna, numa eterna escuridão. Não é nenhum filme de terror.

OS MORTOS E OS VIVOS

Existem os vivos mortos que passam a vida sem ser vivida e nem sabem que já morreram. Existem também os mortos vivos que nunca são esquecidos pelos seus feitos e que deixaram exemplos para serem seguidos pelos passageiros dessa chuva. Os caminhos podem ser  diferentes, mas todos se encontram lá, em algum lugar que cada religião tem sua explicação. Acreditar nas versões diferentes não é importante. O que mais importa é definir o seu existir e continuar vivo, mesmo depois de morto. Foi tudo isso que as lentes do jornalista Jeremias Macário flagrou no Dia de Finados, no Cemitério da Saudade, que o próprio nome já diz tudo.

O SOL ESTÁ CAINDO

Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário

Vê lá no pé da serra, moço!

No infinito do horizonte,

No rasante cor de sangue,

Duelo bang-bang de gigante

Onde uma morte cai na terra,

No beijo da noite com o dia,

Vadia o sol dourado na penedia.

 

O sol está caindo na flora,

Bailando ao som da viola,

Sem o barulho infernal da cidade,

Viola que chora a dor da saudade.

 

O sol está caindo despedaçado,

E a escuridão abrindo seu portal,

Para entrar os anjos e os fantasmas

Dos filósofos andantes e poetas

Nessa lida de tantos nós pra desatar,

De tantos profetas a nos avisar

Que o nascer traz a morada mortal.

 

O pôr-do-sol está caindo

Para quem fez a sua jornada,

Na poeira dessa longa estrada

Entre canções, açoites chicotadas,

Na aurora traz raios de luz a clarear

As veredas das intrincadas ciladas

Que as estações chamam de amor

No espiar do tempo, nosso senhor.

 

 

 





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